“Filosofia e história da ciência” no IBFCCFº/UFRJ – 2012

Professores responsáveis:

  • Cristina Motta: mestrado e doutorado pelo IBCCFº, UFRJ, pós-graduação em Filosofia Contemporânea e Filosofia das Diferenças pela PUC, orientadora do curso de Pós-graduação em Biofísica/UFRJ,
  • Fernando Antonio Soares Fragozo: Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ, professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia/UFRJ
  • Antonio Augusto Passos Videira: Doutor em Filosofia – Paris VII, professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia/UERJ

O curso conta ainda com a colaboração de membros do Grupo de Pesquisa em Estudos Sociais e Conceituais de Ciência, Tecnologia e Sociedade:

  • André Luis de Oliveira Mendonça – Doutor em Filosofia (UERJ)
  • Verusca Moss Simões dos Reis – Doutora em Filosofia (UERJ)
  • Leonardo Rogério Miguel – Doutor em Filosofia (UERJ)
  • Priscila Silva Araújo – Doutoranda em Filosofia (UERJ)

Período: abril e maio de 2012

Local: Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, UFRJ

Objetivo: Introduzir alunos de mestrado e doutorado do Instituto de Biofísica no universo da filosofia e da história da ciência de modo a tornar efetiva uma reflexão sobre a prática profissional de cada um dos segmentos visados por este curso.

Texto final para discussão

Abaixo do texto, a pergunta nele inspirada e respostas dos alunos e de professores do IBFCCF

Certas incertezas

Affonso Romano de Sant’ Anna

Leio  aqui no JL (21.11.2007) que o cientista português José Croca,  acaba de ganhar o Prêmio Galileu de Física por apresentar argumentos teóricos e práticos que contestam o chamado “princípio da incerteza” de Heisenberg.

Isto interessa-nos sobremodo. Não só aos físicos. Também aos escritores. Como se sabe, o século XX inaugurou um “novo paradigma: o da “incerteza”, do “acaso”, da “probabilidade” e da “relatividade”. Passou-se a concluir que a “incerteza”  é que regula   a história, a arte e a vida. Alguns concluíram que a história tinha chegado ao fim, outros que a arte tinha morrido e que a  ética tanto quanto a estética caíram em desuso. Começou-se a agregar   isto ao pensamento de Nietzsche que no final do século XIX demoliu algumas  “certezas” filosóficas. E Nietzsche passou a ser uma espécie de filósofo quântico, que está na base do pensamento de Foucault, Derrida, Deleuze, Barthes e outros sofistas dos  anos 60, que reafirmaram que não existe” verdade”, que tudo são aparências, tudo é interpretação e deslizamento de sentidos. Vivia-se no império do significante vazio. A filosofia  e a teoria da literatura viraram   um apêndice ou vulgata da física quântica

Constituiu-se no século XX, portanto a ideologia da incerteza. O certo, ou seja, o politicamente correto, era o incerto. Nas Ciências Humanas, buscou-se uma confirmação disto na linguística. Assim como em cada língua as palavras, por exemplo, “cão” ou “árvore,” são grafadas de formas diversas, passou-se a admitir que a verdade é arbitrária, deslizante, insituável. Adeus universo de causa e efeito. Então, Newton- o gênio que aglutinou todo o saber do século XVIII passou a ser um tolo. Aristóteles, então, um primata. Até Einstein que não curtia totalmente a ideia da “incerteza” foi depreciado, só porque argumentou que Deus não joga dados com o universo.

Realmente a física quântica dizia coisas desnorteantes: “um elétron ao mudar de órbita, desaparecia de uma e reaparecia instantaneamente na outra sem percorrer espaço intermediário”. Era o famoso “salto quântico”. Com isto, começamos a examinar o teatro de Beckett, a prosa de Joyce, a incertezas  existenciais dos personagens, a pintura abstrata, a arte do caos. E oficializaram-se as tolices ditas por Duchamp: de que todo mundo é artista, que o receptor é que faz a obra e que não há problema porque não há solução O mundo era mesmo um teatro do absurdo. Um jogo de dados gratuito como  queria Mallarmé.

Já não se tratava daquilo que ocorrera ao tempo de Ptolomeu e Copérnico em que se discutia qual era o centro do universo. Agora a ciência, as artes e a filosofia vinham dizer que não havia centro algum. “Descentramento” passou a ser a palavra da moda. Convenhamos, isto faz qualquer um perder o norte.

A geração que se formou seduzida pelas teorias de Nietzsche, Foucault, Derrida, Deleuze, Barthes e outros menores, se apaixonou tanto  pela incerteza, que criou um novo credo, a certeza da incerteza. Isto virou uma religião, a religião de paradoxos insolúveis e dos  oxímoros paralisantes. O vazio pleno. O silêncio ruidoso. A indecidibilidade do dizer.

Essa descoberta do físico português, dá o que pensar. Pode ser mais uma passo na revisão do século XX, época em  tínhamos tantas incertezas certas. Esse José Croca alega  que o pensamento de Heisenberg impunha uma barreira ao conhecimento. “Mostrei que tal barreira não existe. Ou que podemos ir muito além dela. E que é possível  explicar fenômenos tidos com misteriosos e inexplicáveis em termos causais. Não há fenômenos misteriosos em Ciência”.

Já nos anos 70 a Teoria do Caos demonstrou que o caos não é caótico, que tem uma ordem. Contrariando a ideologia da incerteza, desde os anos 60, Rudolf Arheim dizia que “uma obra de arte não é um enunciado à deriva”. E já em 1962 Thomas Khun discutia como se formam os novos paradigmas.

Pergunta da equipe

Até que ponto a física agora pode contribuir para a fixação de outro paradigma diante da exaustão do velho paradigma  que aprisionava o conhecimento  decretando que  a incerteza, paradoxalmente,  era um horizonte intransponível?

Respostas dos alunos

“A incerteza não é uma barreira para a ciência, mas sim um combustível. Toda pesquisa científica nasce de uma incerteza, cabe ao cientista tentar resolvê-la. Os resultados desta pesquisa respondem a uma ou algumas poucas perguntas. As perguntas não respondidas gerarão novas incertezas que, por sua vez, alimentarão novas investigações científicas. O cientista vive da incerteza, ele deve ser grato pela existência dela. A prática científica em si consiste, basicamente, em tentar solucionar incertezas e gerar novas incertezas, num ciclo que envolve não só a comunidade científica como também a sociedade como um todo”
Amanda Santos Franco da Silva Abe

“De forma quase paradoxal, acredito que a ciência, que tradicionalmente é conhecida por produzir verdades e certezas, repousa sobre bases incertas. Apesar de toda tecnologia associada, a principal ferramenta usada nas pesquisas científicas é o cérebro. Esse órgão tão exaltado está, ao mesmo tempo, associado à razão e sujeito a ser bombardeado pelos efeitos emocionais, culminando em resultados influenciados por interpretações pessoais que devem ser questionados quanto a sua veracidade. A incerteza cria dúvida e a dúvida movimenta a ciência. Além disso, a incerteza gerada no dia-a-dia, seja suscitada pelo medo de não cumprir prazos ou por não conseguir acreditar nos resultados obtidos, cria um misto de incômodo e prazer que acabam sendo convertidos em paixão e usados como engrenagem para produzir mais ciência.”
Juliane Siqueira

“Acredito que a física pode desvendar muitos paradigmas desde que se observe de um modo diferente ao que as pessoas comunmente as vem, já que é a percepção de cada individuo o que estaria colocando limites para nós acrescentar os nossos conhecimentos. É o que sempre aconteceu desde sempre, aquele que afirmava algo que para o geral da época era loucura depois de décadas aquela afirmação era comprovada como verdadeira e aquele louco que propus a ideia se convertia em um gênio…. morto.”                                              Kelly Valcarcel Delgado

“Até que ponto a física agora pode contribuir para a fixação de outro paradigma diante da exaustão do velho paradigma que aprisionava o conhecimento decretando que a incerteza, paradoxalmente, era um horizonte intransponível?
A ciência pode contribuir seguindo seu caminho normal a procura por suas respostas e sendo cada vez mais cautelosa no estabelecimento de seus achados (novos paradigmas).
De fato a incerteza sempre foi um agente modificador da realidade, pois é através das nossas dúvidas que surgem as perguntas e para elas, as respostas. Em geral, são os insatisfeitos que tem a capacidade de transformar o mundo, cada um a seu jeito, à sua maneira, fazendo a sua arte.
Incertezas, por incertezas, todos nós sempre teremos, uma vez que, (nisso sim temos de concordar), o mundo que nos cerca é muito mais do que nossa sensibilidade consegue perceber. O cuidado que se deve ter é para não sair por aí “oficializando tolices”. Uma delas é a certeza da incerteza de forma nostálgica. Como já foi dito: “…Isto virou uma religião, a religião de paradoxos insolúveis e dos oxímoros paralisantes. O vazio pleno. O silêncio ruidoso. A indecidibilidade do dizer…” . Sendo pois gerado o culto ao incerto, como se poderá construir conhecimento e de fato acreditar naquilo que se declara?
Esse tipo de incerteza é mortal, de amordaçar os sentido e paralisar o trabalho de um cérebro pensante. Ainda que, de acordo com alguns sofistas “não existe “verdade”, que tudo são aparências, tudo é interpretação e deslizamento de sentidos.” A busca por ela não pode ser uma barreira intransponível. A busca pela verdade deve ser incessante.
Nessa discussão cabe-se bem usar por exemplo quem a originou: “As Incertezas” de Werner Heisenberg. Heisenberg foi um cientista que valorizava a filosofia, interessava-se em refletir sobre a condição humana e deixou muitos textos filosóficos. Ele criticou a ciência materialista, tinha uma concepção própria da origem da ontologia materialista que predominou nas ciências posteriores a Descartes e entendia que este predomínio tinha relevantes consequências éticas e sociais.
‘Pouco a pouco, se foi modificando o significado da palavra [natureza] como objeto de pesquisa da ciência’ (HEISENBERG, s.d., p.10). A ciência deixou de tratar da natureza, para tratar de nosso conhecimento sobre a natureza.
A resposta a tantas transformações no campo do conhecimento científico, segundo Heisenberg, seria repensar o conceito de ciência, abandonando o materialismo que a condicionava anteriormente e admitindo os limites da investigação científica.
Nesta nova perspectiva, a ciência não mais pode ser entendida como o único conhecimento possível da natureza. Nem a natureza pode ainda ser entendida como um conjunto de coisas. A ciência é possível onde há certo grau de objetividade a ser alcançado. Quanto mais um determinado conhecimento está relacionado ao sujeito, menos a ciência pode se pronunciar sobre ele. A ciência não mais fala o que é a natureza – e nem poderia – ela não emite a última palavra sobre seu funcionamento como algo independente do modo como nos relacionamos com ela. Heisenberg afirmava que a ciência precisa ser vista como um elo da “cadeia infinita de contatos” que o homem estabelece entre si mesmo e a natureza. Ao buscar a objetividade, escolher um centro de interesse e definir variáveis, a ciência de certo modo nos distancia da natureza em sua totalidade. Mas é ela também um meio de reconhecimento do papel do ser humano nessa rede de conexões que constitui a realidade.”                                                                                                                                            Ana Sheila

“Ao estudar a vida, as ciências biológicas e da saúde, devem estar preparadas para lidar com incertezas, uma vez que a vida é um grande mistério para o homem. Por mais que se estude, sempre há o que não se conhece, o que precisa ser descoberto, o que precisa ser desvendado. A condição de sobrevivência de uma ciência não são apenas acertos e certezas. A ciência admite os erros e incertezas. No entanto, esses erros devem ser minimizados o máximo possível, através do controle máximo de todas as variáveis envolvidas nos estudos. Esta é a questão: a ciência não precisa assumir que não existem incertezas e deve reconhecer que é limitada, uma vez que é incapaz de controlar todas as variáveis de forma precisa e não consegue abranger todos os campos envolvidos nas questões da vida simultaneamente. Deve reconhecer que responde apenas algumas ou uma questão individual sobre determinada pergunta e que essa resposta está permeada por uma certa incerteza. Ainda assim, essa resposta deve ser confiável e creditada o suficiente para servir de base para outros estudos e para nortear o progresso da evolução da sociedade humana.”
Dayse Manhães

“A pesquisa científica leva os homens a descobrirem fatos que, embora sejam bem descritos e entendidos, não deixam de constituir grandes incertezas com as quais aprendemos a conviver e a aceitar, tendo em vista sua comprovação indubitável. Por mais que nos expliquem como um avião consegue permanecer estável nos ares e nos mostrem as leis físicas envolvidas com os fenômenos presentes nesta situação, ainda assim continuamos a achar que o avião é pesado demais para conseguir ser sustentado no ar. De forma semelhante, quando se trata do mundo microscópio, por exemplo, as incertezas não deixam de existir. Como é possível uma molécula como o DNA, que mede um metro de comprimento, possuir um nível de organização tão elevado e padronizado que o permite enrolar-se de modo a caber perfeitamente dentro do núcleo de uma célula? A existência de explicações científicas plausíveis, aceitas e confirmadas não excluem totalmente as incertezas que temos sobre diversos assuntos.
O avanço das pesquisas científicas apresenta, ainda, um agravante: a natureza limitada da mente humana. O ser humano não é capaz de compreender a complexidade de muitas coisas, porque sua mente é limitada e não o permite. Como entender o tamanho do Universo? Onde ele começa e onde acaba? Como é possível ele se expandir? Como se pode ver, a ciência possui muitas incertezas (mesmo havendo explicações para elas), e o fato de elas não terem sido desvendadas não constitui barreiras para que paradigmas sejam criados ou que ela avance, gerando novos conhecimentos para o homem. Vale lembrar, no entanto, que a fixação de um novo paradigma não é tão trivial, pois a sociedade científica é muito conservadora, tendendo sempre a manter os atuais e resistindo contra mudanças.”
Diogo Neves

“Falar sobre certeza na vida é muito complexo e contraditório. Na vida científica então é ainda mais difícil. Por principio, para se fazer algo científico, temos que ter a dúvida. Isso nos gera a pergunta que nos remete à hipótese e a experimentação através da metodologia. Experimentar é testar e avaliar. Estes dois verbos já me remetem à incerteza.
De forma mais prática, nesta vida científica a dúvida nos ronda ainda mais e a incerteza de um futuro concreto. Fazer ou não mestrado? Ingressar no doutorado ou arrumar um emprego? Fazer prova para professor ou pós-doc no exterior? Porém, estas dúvidas e incertezas “científicas” são o combustível que movem não só o pesquisador como profissional, mas principalmente com ser humano.”
Roberta Guimarães

“Gostaria de iniciar a minha resposta utilizando a fala de José Croca ‘não há fenômenos misteriosos na Ciência’. De fato, essa é a minha visão de cientista. Acredito que o ‘novo’ e o ‘diferente’ nesse novo paradigma que aceita a existência da certeza e da verdade são: a nova forma de fazer ciência e a nova visão do cientista.
Antes de tudo, quero dizer que sim, o cientista acredita na dúvida e na incerteza, mas que a vê como uma verdade momentânea e totalmente transponível.
Considerando meu restrito conhecimento sobre as ciências antigas, creio que os Princípios de Heisenberg mudaram a forma imperialista e de portadores da verdade absoluta e indesmentível dos cientistas.
Hoje, toda a investigação tornou-se um processo de superação da dúvida. Com o reconhecimento da certeza provisória ou desconhecida conclui-se que existe um erro ainda não detectado.
Desse modo, torna-se necessário a busca pela exatidão, realizando sucessivos controles e metodologias rigorosamente confiáveis.
Nesse ponto, entra o papel do cientista. Este deve ter o pensamento ilimitado e a vontade de conhecer. Deve ter em mente que só se chegará à verdade ainda desconhecida se houver autocrítica, muitas tentativas e o máximo de rigor.
Produzindo conhecimento individual, essa máxima verdade irá confrontar-se com outras verdades da comunidade científica já estabelecida. Todos os estudos acabam interagindo e somando-se.
Assim, só nos resta a dizer que esse caminho nos conduzirá ao avanço do conhecimento e da ciência, nos aproximando cada vez mais da verdade absoluta, superando os erros, saneando as dúvidas e estabelecendo o novo paradigma da existência da certeza.”
Phercyles dos Santos

“Cada ciência tem o seu modus operandi, pensarmos na Física como uma ciência que sempre fornece subsídios para as demais áreas do conhecimento é um pensar reducionista, tendo em vista que hoje cada ciência tem sua especificidade e seus próprios paradigmas. Considerando que o princípio da incerteza se aplica apenas ao mundo subatômico, algumas descobertas e áreas do conhecimento advindas a posteriori foram influenciadas por esse princípio, contudo para a própria Física esse paradigma não foi o pilar de todas as questões e objetos de estudo. Todavia, parafraseando Kunh, os aspectos psicológicos, sociológicos e históricos é que são preponderantes para a fundamentação da ciência, possibilitando até mesmo o estabelecimento de um novo paradigma em detrimento de um paradigma vigente.”
Grazielle Pereira

“Não acredito que a física ou qualquer outra ciência se proponha a “derrubar” a incerteza. Encontrar ou colonizar um elétron não representa o fim das incertezas, teremos sempre outros problemas, outros horizontes intransponíveis. O fato de alguém (José) pensar em transpor o limite de Heisenberg mostra-nos exatamente isso: Nem a incerteza de Heisenberg era certa. A relatividade não faz de Newton um tolo: Sem suas quase-certezas tão funcionais jamais chegaríamos onde chegamos – faltou-lhe encontrar uma exceção. O objetivo dos cientistas como instituição são as quase-certezas. Como homens, criam por si cada qual seu conjunto ilusório de certezas, que os direcionem. Ainda que seja a certeza da incerteza, que passarão toda vida tentando provar.
Mas não é causa para desespero: As incertezas alimentam e libertam os cientistas e os poetas. Sem a incerteza, o que seria de Dom Casmurro, da Mona Lisa? Até mesmo o humor me parece em grande parte baseado na subversão de certezas. Se as coisas fossem dadas como certas, em que consistiriam os melhores questionamentos da ciência?
O vazio existencial que a vida toma, sob a perspectiva da incerteza, me parece apenas falta de fé em qualquer coisa, excesso de confiança na nossa lógica. É um lugar para se visitar, e então estabelecer o que se quer ter por certo, ou por quase-certo. As obras de arte que amamos não precisam ter sentido lógico, apenas agir em nós como se tivessem, ou muitas vezes agir em nós justamente por não terem nenhum, causando um sublime formigamento na razão. As certezas, sim, que podem, de forma dose-dependente, aprisionar o conhecimento e desabilitar a arte.”
Elga Bandeira de Mello

“Na ciência, a incerteza não só é uma constante como também é um motor, um estímulo para a incessante busca por novas respostas. Além disso, utilizar de modelos de estudo, técnicas que podem interferir na análise, teorias simplificadas, implica em não se poder entender, pelo menos naquele momento, exatamente como um dado processo ocorre. No entanto, incerteza não significa que fenômenos acontecem de forma aleatória e imprevisível, não impedindo a realização de grandes descobertas que, muitas vezes, trazem grande retorno para a sociedade, como melhores condições de saúde e energia mais limpa.Talvez jamais possamos afirmar algo com 100% de certeza, mas um p < 0,05, na maioria das vezes, já é de grande utilidade.”
Talita Beltrão

“A questão levantada pelo texto é interessante e oportuna. Talvez a melhor maneira de respondê-la é começar admitindo que, qualquer que seja o “novo” paradigma, uma coisa é certa: as incertezas continuarão a existir. Em verdade, elas nunca deixaram ou nunca deixarão de existir tantos quantos forem os novos paradigmas estabelecidos. De certo modo, ter que conviver com certas incertezas nas ciências (como por exemplo: nas biomédicas) é uma das grandes certezas da comunidade científica. Até por que, faz parte da própria construção do conhecimento científico esta dicotomia entre incerteza e conhecimento. Se por um lado, a busca e o avanço da ciência se alimentam das nossas incertezas (são as perguntas que movem este avanço), por outro lado as respostas que obtemos sempre fazem surgir novas perguntas e, portanto, novas incertezas, que alimentam a nossa busca por novas respostas. Isto não significa dizer que o conhecimento estabelecido pelas primeiras perguntas não seja confiável, mas quer dizer sim que ele é sempre humano, sujeito a revisões, a avanços, a melhorias e a certas incertezas.
‘O cientista não é aquele que dá as RESPOSTAS CERTAS, e sim aquele que faz as PERGUNTAS CERTAS. (CLAUDE LÉVI-STRAUSS)’”.
Hercules Souza

“A incerteza e a ciência do século XXI

Certo dia me deparei com um texto de Affonso Romano de Sant’ Anna intitulado ‘Certas incertezas’. Ele chegou até mim através de um curso de Filosofia da Ciência, oferecido pelo Instituto de Biofísica (IBCCF) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, local onde desenvolvo meu projeto de mestrado. Confesso que me fiz parte do corpo de estudantes que frequenta tal curso muito mais por amor e apreço a literatura, a filosofia e a abstração, do que por qualquer outro motivo. No entanto, considero como prerrogativa básica que, na busca por desenvolver uma ciência pouco enviesada e mais próxima da realidade, o cientista seja, antes de tudo, um pensador. Dessa forma, julgo extremamente positivo quando decidimos deixar, pelo menos por algum tempo, as bancadas de nossos laboratórios a fim de pensarmos as questões do mundo a partir de uma perspectiva filosófica.                                                                                                                                              Em seu texto, Sant’ Anna comenta como a ciência do século XX se estabeleceu a partir de um novo paradigma, em suas palavras, ‘o paradigma da incerteza, do acaso, da probabilidade e da relatividade’. Para este autor, essa nova forma de se pensar os fenômenos naturais, nos levou a conclusão de que, na realidade, não existem verdades absolutas; tudo seria aparência e interpretação, e estaríamos vivendo no ‘império do significante vazio’.

Heisenberg

Werner Heisenberg (1901 – 1976), físico alemão ganhador do Prêmio Nobel de Física. Postulou, em 1927, o Princípio da Incerteza afirmando ser impossível determinar, com precisão absoluta, a posição ou o momento (velocidade) de um elétron.

Gostaria de argumentar aqui, brevemente, o porque discordo das conclusões de Sant’Anna dissertando sobre o quanto, na verdade, penso que a admissão da incerteza presta um favor a ciência.                                                                                                                                        A teoria da relatividade de Albert Einstein, a descoberta da mecânica quântica e do princípio da incerteza de Heisenberg trouxeram ao pensamento do século XX a noção de que os fenômenos naturais não são estáticos, previsíveis e unicamente governados por leis universais. Entretanto, isso não significa dizer que, em virtude de tais postulados, nada mais faça sentido. Heisenberg defendeu a impossibilidade de se prever com precisão e simultaneamente a velocidade e a posição de um elétron, mas fez isso baseando-se no método científico, que é racional e cartesiano.
Ao afirmar que os meios empregados para medir o comportamento do elétron terminavam por influenciar seu comportamento, Heisenberg não descredibilizou a experimentação científica baseada no método, apenas valeu-se de um pressuposto básico e insubstituível deste; o de que devemos sempre levar em consideração a margem de erro de nossas inferências. Como muito bem abordado pelo astrofísico estadunidense Carl Sagan em seu livro ‘O Mundo assombrado pelos demônios’, a margem de erro é uma autoavaliação visível e disseminada da confiabilidade de nosso conhecimento. E o sucesso da ciência
está justamente neste mecanismo embutido de correção de erros. O nosso mecanismo de detecção da verdade, o método científico, deve ser refinado a cada dia, a cada nova geração de cientistas. Somente dessa forma é que nos aproximamos cada vez mais da verdade. E é justamente por isso, por a ciência se basear em pressupostos testáveis e confiáveis e por levar em consideração a probabilidade do erro, que foi possível a Heisenberg certificar a incerteza. Uma vez que deparamo-nos com o fato de que os fenômenos naturais estudados pela ciência nem sempre respeitam a racionalidade e as teorias científicas, fica evidente, a meu ver, que uma visão aberta à novas idéias, combinada com o mais rigoroso exame cético de todas elas, deve ser o pensamento científico norteador do século XXI. O cientista que empregar tal forma de pensar certamente contribuirá para uma ciência mais abrangente, à medida que nos aproximamos cada vez mais da realidade.”                   Marcela Uliano

Respostas dos professores do IBFCCFº

“Este texto começa cheio de incertezas uma vez que não tenho conhecimento a priori do resultado de sua leitura nesta sala de aula, por definição do Wikipedia.                        Acrescento ainda o fato de que o prêmio Santilli-Galileu de 2008 e não prêmio o Galileu da Física, como anunciado por Afonso Romano de Santana, atribuído ao Prof. Português José Croca não é completamente aceito pela sociedade científica. Esta considera Santilli um pseudocientista, de ideias bizarras (Carlos Fiolhais. Grandes erros: o prêmio Santilli-Galileu. De Rerum Natura, 07 de maio de 200).                                                                          Mas sigo adiante, pois tenho navegado no mar de incertezas que nós cientistas vivemos. Na maior parte das vezes os resultados por nós obtidos são desconhecidos (o que nos fascina) e podem variar, às vezes substancialmente, dependendo das condições experimentais que foram realizadas. Como o uso de outro tipo celular, ou um diferente ambiente ou estímulo. Seriam necessárias n∞ repetições nas mesmíssimas condições para que o resultado se repetisse.                                                                                                         Convivemos atualmente quase que em progressão geométrica com os princípios da Teoria das incertezas de Eisenberg. Vivenciamos nas ultimas décadas a descoberta de uma série de novas moléculas sinalizadoras, o movimento de proteínase de complexos multiméricos na escala de picosegundos, de que o metabolismo é individual, a taxa de mutações virais é ‘astronômica’, entre outros.                                                                                                                De toda forma, após um punhado de senões, certa capacidade repetitiva e o uso de metodologias e equipamentos um pouco mais precisos (na verdade a medida final pouco depende deles) a incerteza vira quase certeza, com ajuda da estatística, é claro. Mas você verá (ou sabe) que nunca afirmamos nada e que a não afirmação se torna um vício, sem lado bom ou ruim.                                                                                                                              Em sala de aula, respondemos a uma pergunta com outra pergunta: e se não fosse assim, mas assado. Em casa e nas relações pessoais acreditamos que sempre há outro ponto de vista e novas variáveis são introduzidas nas negociações sem fins, assim me parece.           Ao final, sem muita certeza, creio que este exercício quase democrático e espontâneo da ciência nos leva a desvendar um pouco a cada dia daquilo que a priori era desconhecido e portanto incerto.”                                                                                                                             Eleonora Kurtenbach

“Em nosso laboratório, que realiza ensaios analíticos para metais pesados e poluentes persistentes, o cálculo da incerteza em uma determinação é feito em função do somatório de todos os erros associados às medida. Por exemplo, se em cada pesagem ou correção de volume existe uma margem de erro de 5%, esses erros serão colocados em uma equação que depois te dará, em termos percentuais, qual é a incerteza associada. De uma forma mais simples, quando não temos que emitir um laudo oficial que siga as determinações da ISO Guide 17025, podemos trabalhar em triplicatas e determinar que entre elas a variação que queremos deverá ser menor que 20%. Desta forma, estaremos trabalhando de forma satisfatória para a maior parte das medidas. Uma outra forma de abordar/ver esse problema é a partir das curvas de calibração dos aparelhos, uma vez que os condicionantes de operação podem variar de um dia para o outro. Para a correção, usamos sempre fatores de resposta e também operamos a calibração de nossos aparelhos no modo de padronização interna, onde calculamos sempre um fator de resposta para podermos corrigir a medida com maior segurança.”                                                                                   João Paulo Torres

“Por incrível que pareça, creio que se fosse só isso que comenta Affonso Romano de Sant´anna no texto, seria mais simples do que realmente é. No caso do conhecimento em ciência temos sido atropelados por casos de “misconducting” e “papers retracted” que por vezes ficamos com aquela sensação…”afinal isso é verdade ou é farsa, invenção?”. Recentemente li uma reportagem sobre uma determinada droga que agia preferencialmente sobre células cancerígenas in vitro…efeitos robustos, bem ensaiados e apresentados em artigo científico em revista de alto impacto. A partir deste artigo, não apenas laboratórios de pesquisa básica e clínica como grandes nomes da indústria farmaceutica passaram a correr atrás de refinar aquele efeito e patentear um composto finalmente com ação direta sobre o cancer. Milhões, talvez bilhões de dólares investidos e em um par de anos descobre-se que tudo não passou de invenção dos autores do paper inicial, aquele que deflagrou toda a nova linha de pensar. Ou seja, os cientistas antes retidos na barreira do desconhecimento daquela substância e dos seus efeitos, ainda que falsos, jamais haviam aventado a possibilidade de investir naquilo. Foram investir baseado num grande engodo e apenas descobriram o fracasso já tarde demais. Em resumo, mais do que nunca deve-se estar atento ás supostas quebras de paradigmas para que não venhamos no fim a quebrar a cara.”                                                                                             Marcelo Einicker

“Penso que a ciência biológica comporta tanto as incertezas quanto quase-certezas, não havendo mudanças (ainda) na sua práxis, neste período de transição entre os séculos XX e XXI.                                                                                                                                                          O poeta há de convir que, à semelhança do que ocorre na paixão amorosa, a incerteza (o mistério) ainda é a força motriz que impele o cientista a inovar, experimentando. Tal como na arte, uma obra científica que se impõe como inovadora requer inspiração, suor e extrema persistência. Invariavelmente, o “salto quântico” ( a quebra de um paradigma consolidado) ocorre depois de um exaustivo processo de demonstração. Conhecimentos pontuais, quase-“certezas”, acumulam-se, permitindo que o cientista salte a barreira, alcançando o novo orbital, tangenciando a verdade “absoluta”. Uma vez formulados, as incertezas presentes no novo conceitos sofrem questionamento, cedendo lugar para as quase-certezas. Graças a este ciclo, renova-se continuamente o processo de evolução cientifica observado em nossa era.”                                                                                              Julio Scharfstein

“A incerteza é que move a ciência, pois se tudo já estivesse definido, se tudo fosse “certo”, não haveria o que descobri e “provar” e a Ciência não evoluiria. A incerteza é que move a Ciência. O certo é que tudo é incerto. [essa é minha frase].”                                                 Lycia Gitirana

“Lendo as dúvidas sobre as certezas e incertezas das ciências e das artes do texto de Affonso Romano de Sant’ Anna, “Certas incertezas”, bem como do poema do mesmo autor, venho com mais uma “certeza” sobre as incertezas. Para mim, como pesquisadora na área da biologia, da neurobiologia particularmente, tenho a certeza de que o que nos move é a certeza das incertezas.                                                                                                                            O que quero dizer é que certas incertezas existirão sempre no mundo acadêmico. Não seria de outro modo, posto que saltos científicos ou o que chamamos de avanços são, na verdade incertezas desta nossa busca, releituras de fenômenos e processos a luz de novas tecnologias ou de novas teorias. Viva as incertezas da ciência, da arte e da vida!”           Patricia Gardino

“Como lidamos com as dúvidas no dia a dia dos nossos experimentos, com as dúvidas dos nossos alunos? Bem, em relação aos experimentos tentamos ao máximo nos cercar de controles para os nossos experimentos. Porém mesmo assim muitas dúvidas surgem com resultados inesperados, daí fazemos mais experimentos sempre na tentativa de confirmação dos dados obtidos. Sabemos como é difícil lidar com seres vivos, e é com isso que trabalhamos, embora sejam microscópicos. E como esses seres vivos são variáveis, mesmo sendo da mesma espécie, pois dependendo das condições de cultivo podemos mudar o meio ambiente onde se encontram e com isso as respostas desses a essa mudança. Isso sem descuidar da ética, pois resultados confiáveis são extremamente importantes para o prosseguimento de novos experimentos.”                                              Tecia Ulisses de Carvalho

 Metacrônica da incerteza

por Rafael Linden

Duas de minhas alunas sugerem que eu participe de uma atividade coletiva como parte de uma disciplina de pós-graduação. Estudantes e professores de meu instituto foram convidados pela Professora Maria Cristina Machado Motta a escrever um comentário, de um parágrafo, sobre uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna. Ora, um parágrafo! Como se eu conseguisse me conter em um parágrafo ao ler um poeta e cronista de tamanha estatura…

O escritor publicou “Certas incertezas”* em 2007, motivado pela concessão do prêmio Santilli-Galileu ao físico portugues José Croca, professor da Universidade de Lisboa, por seu trabalho em física quântica. Não me arrisco a analisar as teorias de Croca, o significado real do tal prêmio, nem a versão jornalística da conquista científica atribuida ao cientista em uma reportagem pra lá de esquisita no Jornal das Letras, tudo isso já comentado por outrem com estofo para tal**. Daqui em diante, este texto será uma crônica da crônica.

Affonso comenta, em grande estilo, a suposta derrocada do chamado “princípio da incerteza”, de Werner Heisenberg, que se refere à imprecisão inerente a certas medidas físicas, causada pela necessidade de interferir no objeto para executar a medição. Esqueçamos a física, pensemos na incerteza. O cronista se alegra com a perspectiva de entrarmos em uma nova era, livre da barreira que a incerteza impõe ao conhecimento.

Simpatizo com o autor no exorcismo de certos demônios filosóficos, literários e artísticos, gerados pelo contorcionismo intelectual dos que usam a mecânica quântica para justificar toda sorte de desvarios. Mas daí a desejar que algo ou alguém nos livre da incerteza vai uma distância considerável. Por absurdo, queremos de fato que o mundo retorne a uma era de certezas absolutas? E é aí que meu próprio malabarismo mental encaixa um dramaturgo carioca, por acaso nascido no mesmo ano que o cientista portugues. Clovis Levi escreveu em 1975, junto com Tania Pacheco, a peça “Se chovesse vocês estragavam todos”, pela qual ganhou o prêmio Governador do Estado de São Paulo. Comparação pobre, porém limpinha, afinal Croca e Levi são dois criativos premiados. E aí acaba a analogia, pois a peça é uma comédia crítica do autoritarismo, das restrições à liberdade e da imposição da mesmice. Uma das cenas mais marcantes é aquela em que a professora, que vi no Teatro Opinião em 1976 interpretada pela então estreante Priscila Camargo, explica com ar angelical os malefícios da dúvida. Entre outras barbaridades um diálogo com o aluno, representado por Tião d’Ávila, o leva a equacionar a dúvida com o passado. Na peça, como na vida, livrar-se de dúvidas conduz, naturalmente, ao conformismo. Pois aí está. O fim da dúvida, o fim da incerteza. Devemos desejá-lo? No poema “Além de mim”***, o poeta confessa desespero por não compreender certos conceitos e sinais. Não carece. Por exemplo, professores e alunos de um instituto de pesquisa científica não apenas convivem pacificamente, como garimpam incertezas para lhes servir de objeto de pesquisa. Portanto, não se afligem. Ao contrário, cultivam a dúvida. Certezas, eventualmente obtidas após longa e penosa luta contra a couraça que protege os segredos da Natureza, de certa forma esgotam o impulso da aventura humana, que consiste em enfrentar enigmas, resolve-los quando possível e, sem desespero, apreciá-los enquanto envoltos no manto da incerteza. Ouvir, por exemplo, o físico Luiz Davidovich explicar com simplicidade e clareza experimentos científicos compatíveis com os saltos quânticos é, ao mesmo tempo, desconcertante e reconfortanteNada fascina mais do que o mistério e a oportunidade de desvendá-lo. Ou tentar. Não são as certezas que movem a humanidade. Aquelas apenas nos fazem pendulear. O que nos impele é a incerteza.

* Veja a crônica no link http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=3008

** Para os interessados, ver o comentário de Carlos Fiolhais, catedrático de Física da Universidade de Coimbra, no link http://dererummundi.blogspot.com.br/2007/12/grandes-erros-prmio-santilli-galileu.html

*** Publicado no premiado livro “Sísifo desce a montanha”, de 2011. Maio de 2012

 Depois dos deterministas e dos pós-modernos: uma epistemologia para o século XXI

por Francisco Prosdocimi

Acredito que possamos entender o século XIX como ápice intelectual do pensamento determinístico e racionalista que se costuma considerar inaugurados por Descartes e Newton, no século XVII. A modelagem de um universo infinito e de regras precisas para o funcionamento dos corpos celestes ou da circulação sanguínea forneceu subsídios inestimáveis para o avanço de nossa compreensão do mundo físico que nos cerca. O pensamento racional provou que quando associado a (i) um modelo teórico eficiente e a (ii) metodologias estritas de apreensão da realidade, pode ampliar a compreensão do ser humano sobre o mundo e permitir o desenvolvimento de novas tecnologias.

Com o passar dos anos, os cientistas começaram a compreender que as regras observáveis no universo não precisavam respeitar (i) nenhum princípio perene ou estrito de lógica ou racionalidade e muito menos (ii) um modelo teórico originalmente proposto. Além disso, toda a metodologia experimental poderia ser modificada de maneira sutil e tais diferenças poderia produzir resultados ininterpretáveis segundo as teorias existentes e suas lógicas. Dessa forma, a ciência do século XIX estava preocupada em buscar modelos experimentais ótimos que suportassem as teorias e permitissem expandí-las em seus focos de ação.

À medida que as observações eram acumuladas, foi-se descobrindo que nem todas eram compatíveis com as teorias vigentes e que havia sim muitos fenômenos considerados inexplicáveis. O excesso de objetividade científica foi tornando a ciência cada vez algo restrito a um público fiel, catequisado ante um paradigma teórico vigente. Embora esse paradigma explicasse de forma lógica e determinística os fenômenos em um ponto de vista teórico, ele não se mostrou efetivamente capaz de realizar predições — com a precisão desejada — de fenômenos físicos do mundo real. Pasmos e soberbos, os cientistas mal conseguiam acreditar que o universo poderia deixar de respeitar as leis que eles mesmos tinham criado para moldar seu funcionamento. Ainda que elegantes, os modelos eram excessivamente simplistas e reducionistas, tratando a realidade tal qual um projeto de engenharia divina. Os homens acreditavam ter finalmente compreendido a mente de deus. É possível que o auge do pensamento determinístico tenha sido alcançado com um dos mais respeitáveis cientistas franceses da época napoleônica. Pierre-Simon Laplace (1749-1827) ficou conhecido por cogitar a existência de uma entidade que conhecesse (i) todas as forças da natureza e (ii) as posições de cada uma das partículas que a compunham. Aplicando essas conhecidas forças à todas as partículas do universo, uma divina entidade teria revelada à sua frente todo o passado, presente e futuro. O história reservou ao deus de Laplace a alcunha de demônio e à regra, talvez a mais dura crítica ao determinismo. Laplace tirou toda a aleatoriedade da concepção do universo e considerou-o infinito, perfeito, imutável. Acontece que o universo nunca houvera prometido aos cientistas que (i) ele funcionaria segundo a teoria, que (ii) ele funcionaria sempre da mesma forma ou que (iii) ele deveria seguir alguma lógica humanamente compreensível de funcionamento. O universo, percebeu-se, não seguia as leis de funcionamento de si mesmo. Epistemologicamente falando, o universo provou-se anarquista.

A inércia do cartesianismo e o modus operandi da ciência ultra determinística alcançou seu apogeu no século XIX, mas ele parece ter também se esgotado enquanto modelo teórico ao findar deste mesmo século, quando observações da física viriam finalmente a contradizer muitos dos pressupostos básicos da física newtoniana. Planck, Heisenberg, Bohr e Einstein, dentre outros, realizaram a transição de uma física ideal com herança na caverna de Platão para uma física de cunho mais empirista, que buscava explicar e organizar os resultados de experimentos. Também a experimentação havia se desenvolvido absurdamente desde os tempos de Newton e mesmo um respeito aristocrático pela tradição científica começava a se afrouxar desde a revolução francesa e, agora, se os resultados não se adequassem à mais bela de todas as teorias científicas, não haveria problema: criar-se-ia uma nova teoria que explicasse os resultados. E assim novas teorias com menor grau categoricamente objetivo e mais embasadas em efeitos estatísticos começaram a tomar conta das ciências. No século XX, o próprio estatus do conhecimento científico será modificado e a ciência deixará de ser vista enquanto a verdade propriamente dita e passará a ser entendida enquanto um modelo aproximativo para a verdade — que estará sempre incorreto ou incompleto. Também nas ciências humanas ocorre o que se chamou de virada linguística, onde as palavras e os conceitos (significantes) passaram a ser compreendidos como correlacionados apenas tangencialmente as seus significados. Thomas Kuhn percebe isso ao tratar da polêmica questão sobre a incomensurabilidade das teorias científicas. Uma vez que Newton e Einstein consideravam força ou massa de forma diferente, não se poderia dizer que nenhuma das duas teorias seria melhor e não se poderia nem mesmo comparar ambas de forma objetiva: elas se baseavam em diferentes conceitos. Bastava que fossem coerentes internamente e só poderia compará-las efetivamente aqueles indivíduos catequisados segundo ambos os paradigmas, os bilíngues capazes de entender a articulação conceitual do inglês e do alemão. Além disso, o acúmulo de dados empíricos que se mostravam incompatíveis com as teorias foi aumentando. As chamadas anomalias, segundo Thomas Kuhn, levava à reformulação de muitas teorias e houve o caso clássico da precessão do periélio de Mercúrio que demonstrou que a mecânica quântica produzia resultados mais satisfatórios nas predições do que a mecânica clássica. Não obstante, na falta de teorias alternativas a explicar as novas observações ante um modelo teórico abrangente, os cientistas não deixavam de acreditar em suas velhas teorias e seguiam realizando pequenas modificações em suas periferias axiomáticas afim de adequá-las melhor às observações. Imre Lakatos sugeria que as teorias científicas teriam um núcleo duro conceitual e teriam outras subteorias mais periféricas que, estas sim, poderiam sucumbir e promover um reajuste mínimo no rearranjo conceitual de determinada conhecimento.

O ideal do século XIX pregava respostas categóricas e definitivas, idealísticas como as sombras da caverna de Platão, para um universo visto como determinístico dos seus mais básicos aos mais amplos aspectos. Metodologicamente falando, deveria haver um — e apenas um — método verdadeiramente eficiente e eficaz para o questionamento da realidade e busca científica. Se o método correto fosse encontrado, teríamos a resposta correta que se ligaria de forma precisa à teoria. É possível que os primeiros críticos desta visão hiperdeterminística tenham de alguma forma exagerado a questão para o lado contrário, do indeterminismo. Assim um movimento filosófico no século XX normalmente referido como o pós-modernismo surgiu a abalar os alicerces da ciência. Sugere-se frequentemente que os filósofos pós-modernos, chamados até de sofistas, tenham negado qualquer tipo de certeza e duvidado de todo o conhecimento de uma forma muitas vezes vista como irresponsável, culminando no que Sant’Anna chama de “império do significante vazio” ou “ideologia da incerteza”.

Nossa idéia neste ensaio seria adotarmos, hoje, um tipo de dialética hegeliana para tentarmos compreender a questão: tese, antítese e síntese. Teríamos então como tese, o fato de que “o universo é totalmente determinístico”. Enquanto antítese, teremos “o universo é totalmente incerto e impreciso”. Precisamos agora criar um conhecimento sintético, que una o que há de verdade na primeira proposição com o que há na segunda. Onde podemos chegar? A verdade é que nenhuma das duas correntes filosóficas radicais podem estar corretas. O século XXI chega agora, portanto, para tentar resolver essa querela filosófica. Ao mesmo tempo em que alguns padrões são mesmo determinísticos, outros não o são. Qual a diferença entre eles? Essa permanece uma questão em aberto. Antes de seguirmos à frente, precisamos ainda recorrer a alguns dos principais filósofos do século XX. Karl Popper é normalmente visto como um dos mais influentes filósofos da ciência do século passado, tendo sido o grande articulador do princípio do falsificacionismo científico e tendo tentado compreender a diferença entre empreendimentos científicos e não-científicos. Dentre várias questões interessantes, Popper sugeriu que é científico aquele tipo de conhecimento que pode ser testado e falseado, caracterizando os outros tipos de conhecimentos como metafísicos e impossíveis de serem cientifizados. Popper também argumentou sobre a existência de um outro mundo de conceitos e ideias que correria em paralelo ao mundo físico normal e que tocaria este apenas de forma sutil. Novos conceitos brotaram dos poços epistemológicos no século XX, e Popper foi um advogado da teoria do universo criativo, que sugeria que novas regras podem ser e são criadas no universo a cada instante. O universo deixa assim de ser estável e imutável. A criatividade pode e deve surgir no universo. A criatividade é, em si, talvez o mais belo dos conceitos universais e é através dela que se entende a vida e os processos. A aleatoriedade, segundo os teóricos do caos, tem também uma ordem sutil que pode ser compreendida e evidenciada. Os processos em pequena escala, quando reunidos em abundância, podem gerar o que se convencionou chamar de padrões emergentes que são exemplos claros da criatividade do universo. Não se pode explicar a vida de um homem ou seu cérebro, ou se ele vai daqui a outro lugar apenas analisando suas moléculas. O demônio de Laplace era agora visto como uma grande inocência. Há vários níveis através dos quais pode-se representar a existência e nem sempre o nível mais alto pode ser completamente explicado pelo nível mais básico: o todo é maior do que a soma das partes.

Com relação à metodologia de trabalho, parece que temos chegado a um consenso nas ciências. Ao mesmo tempo em que o ideal do método perfeito para resolver qualquer problema caiu por água abaixo, a ideia de que nenhum é eficiente ou pode ser eficiente dado o cunho interpretativo do pesquisador, também não nos levou a nenhuma virtude. O que se tem visto e que normalmente é sim ressaltado por muitos dos filósofos ditos “pós-modernos”, mal interpretados por muitos, é que o universo e as regularidades podem ser compreendidos de forma determinística sim, racional, mas de muitas formas diferentes e múltiplas. Umberto Eco pergunta: “quais os limites da interpretação?” De quantas formas podemos imaginar que uma carta de um soldado de guerra à sua mãe americana pode ser compreendida? Embora ninguém poderá dizer que esta carta trate do resultado de um jogo do Flamengo contra o Fluminense, a mesma carta pode ser lida e compreendida a partir de diversas perspectivas. Um estudante de letras inglesas, pode levar em consideração a educação do indivíduo e tirar conclusões sobre toda uma geração educacional norte-americana. Por outro lado, um defensor dos direitos humanos utilizará esta carta para seus estudos de forma diferente. Um coronel, a irmã do indivíduo, você que lê estas palavras. Esta também é maneira de Derrida, ou desconstrutivista, de análise. E como o desconstrutivismo poderia adentrar as ciências duras, seria esta questão de fato.

Nas ciências, também tem se colocado que um mesmo problema pode ser abordado através de diferentes métodos de questionamento da realidade. O único método, ou a leitura da carta pelo ativista político, é apenas uma visão parcial da realidade. Apenas conseguiremos construir uma realidade mais rica e verdadeira através da realização de inúmeras metodologias e formas de análise diferentes, porém complementares. É claro que algumas formas de análise já estarão embasadas em uma grande tradição e poderão nos levar a alcançar patamares mais efetivos de compreensão do que outras. Mas é uma visão de completariedade metodológica que parece estar vindo transformar o conhecimento e torná-lo mais abrangente e multifocal no século XXI. As abordagens simplistas estão com seus dias contados e a síntese do conhecimento através de diferentes perspectivas vem aumentando e cada vez mais mostrando sua força epistemológica.

Portanto, o novo paradigma científico-filosófico para o século XXI baseia-se tanto na racionalidade e na objetividade cartesianas, quanto nas múltiplas abordagens e interpretações pós-modernas. Isso cria um ciência mais abrangente, de questionamento duro da realidade através de múltiplas formas de experimentação (cada uma delas, racional e objetiva), de maneira a criar um conhecimento sólido e multifacetado.

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