“Filosofia e história da ciência” no IBCCFº/UFRJ – 2013

Professores responsáveis:

  • Cristina Motta: mestrado e doutorado pelo IBCCFº, UFRJ, pós-graduação em Filosofia Contemporânea e Filosofia das Diferenças pela PUC, orientadora do curso de Pós-graduação em Biofísica/UFRJ,
  • Fernando Antonio Soares Fragozo: Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ, professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia/UFRJ
  • Antonio Augusto Passos Videira: Doutor em Filosofia – Paris VII, professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia/UERJ

 O curso conta ainda com a colaboração de membros do Grupo de Pesquisa em Estudos Sociais e Conceituais de Ciência, Tecnologia e Sociedade:

  • André Luis de Oliveira Mendonça – Doutor em Filosofia (UERJ)
  • Verusca Moss Simões dos Reis – Doutora em Filosofia (UERJ)
  • Leonardo Rogério Miguel – Doutor em Filosofia (UERJ)
  • Priscila Silva Araújo – Doutoranda em Filosofia (UERJ)
  • Tom Lemos – Doutorando em Filosofia (UERJ)

Período: abril a junho de 2012

Local: Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, UFRJ

Objetivo: Introduzir alunos de mestrado e doutorado do Instituto de Biofísica no universo da filosofia e da história da ciência de modo a tornar efetiva uma reflexão sobre a prática profissional de cada um dos segmentos visados por este curso.

Texto final para discussão

Abaixo do texto, as respostas dos alunos.

Por uma filosofia corpórea da ciência

 Tom Lemos

            Como se sabe, há muito tempo a filosofia está no meio de nós. Depois, surgiu a ciência, e foi ocupando cada vez mais pessoas. Com o crescimento da ciência, filósofos apareceram propondo lhe dar maior segurança: que não apenes crescesse, mas progredisse se distinguindo dos demais saberes. Para tal, os cientistas precisariam obedecer a certas regras. Deveria haver uma certa filosofia para uma ciência certa.

Mas, no meio do século passado, outros olhares filosóficos diante da ciência se fizeram notar. Afirmaram, diferentemente do pensamento tradicional da filosofia da ciência, que cientistas viam mundos diferentes conforme suas teorias, épocas, crenças e compromissos. Disseram que a dinâmica histórica da ciência não obedece apenas a regras internas ao conhecimento científico que o direcionam de modo progressivo e linear, mas envolve fatores externos ao que se convencionou considerar estritamente como o método científico. Antes disso, as convicções de que análises puramente lógicas e metodológicas prestariam o melhor serviço da filosofia à ciência pareciam afirmar não apenas a neutralidade da ciência, mas também a neutralidade da filosofia. Porém, o movimento de mudança de representação contrariou amplamente estas convicções, ao formar não apenas uma nova imagem de ciência, mas também de sociedade e dos cientistas dentro dela. Sugeriu que os cientistas se olhassem em seus especializados mundos, mas como partes de um mundo maior, compreendido histórica e politicamente. Se essa mudança exibiu mais do que antes se via, fazer ciência então se revelou mais do que era.

Ultimamente têm surgido visões filosóficas e científicas ainda mais radicais sobre as atividades dos cientistas. Além de apontarem a importância do contexto social e histórico na produção científica, dizem que todo conhecimento, inclusive o filosófico e o científico, dependem dos corpos, cérebros, emoções, desejos, interesses e processos cognitivos não conscientes daqueles que o produzem. Mais: dizem que modelos e teorias são elaborados tendo como matéria-prima metáforas geradas por experiências corporais e pela imaginação criadora de sentido, e que não há assim conhecimento puramente racional ou objetivo, independente de quem o faz, e onde, e como. Até a ideia de ciência seria produzida em grande parte pela imaginação social – de todos, incluindo a dos próprios cientistas. É uma nova imagem dos seres humanos: somos todos contextos de crenças, valores e sentimentos que nos conduzem sem pedir licença. Conhecer esta condição, em vez de ocultá-la, seria inevitável para ampliar a capacidade de pensar e agir.

Esta visão mais radical, de que toda cognição é essencialmente corpórea, começou a ser construída a partir da discordância de cientistas cognitivos – psicólogos, neurocientistas, antropólogos, linguistas, cientistas da computação –, e também filósofos, de que a percepção, o pensamento e a ação humanos seriam explicáveis apenas segundo o modelo computacional e lógico do funcionamento cerebral, tão aferradamente defendido pelas ciências cognitivas tradicionais. O modelo computacional da cognição, elaborado sob liderança dos proponentes da inteligência artificial, tinha como pressuposto poder ser aplicado tanto a computadores artificiais quanto ao cérebro humano, indistintamente. Porém, para os defensores da cognição corpórea, perceber, pensar e agir não são sequer processos unicamente cerebrais, uma vez que dependem, para acontecer, do corpo; dependem inclusive de emoções e sentimentos, que no corpo se efetivam. Segundo estes pesquisadores, as emoções e os sentimentos não são, assim, incômodos a serem eliminados da correta cognição. Nem mesmo se trata de decidir se os fatores afetivos devem ser autorizados ou não a contribuir para os processos cognitivos. Não há tal opção: eles são inevitáveis e constitutivos de todo pensamento. Para estes autores, as decisões racionais, por exemplo, são intrinsecamente produzidas com a concorrência de processos emotivos, e não apesar deles. Mas a importância do corpo na cognição, para a orientação corpórea, vai muito além de seu papel afetivo. Também não se resume ao fato trivial de que, de algum modo, a estrutura física dos dispositivos cognitivos, sejam cérebros ou hardwares, sempre influenciam a cognição que neles acontece. A ideia é bem mais profunda e desafiadora. Ela se baseia em algumas concepções fundamentais.

A primeira delas reside no valor central conferido pela orientação corpórea à experiência individual. Esta é assumida como o acontecimento básico através do qual formamos nossas crenças e conceitos, inclusive de modo não consciente. Isto é, por meio das experiências, significados vão sendo constituídos e marcados no corpo (do qual o cérebro e os neurônios são entendidos como parte), com toda a sua carga afetiva incontornável, e associados a outros significados produzidos em experiências anteriores, no que constitui o processo cognitivo.

Os autores da cognição corpórea também ressaltam o papel da imaginação na criação de conhecimento, como uma forma de produção de opções ao mundo percebido que, diante da necessidade da descoberta de caminhos alternativos, nos permite transformar experiências passadas em ferramentas de criação de novos futuros, de viabilização da vida. Mas, para a orientação corpórea, também a imaginação integra um processo essencialmente corporal e afetivo, em que combinações de sensações já vivenciadas pelos sentidos e pelas emoções são, mediante associações, analogias e metáforas igualmente corpóreas, realizadas por todos nós como forma de aprender e inventar.

Outra concepção da orientação corpórea é a de que o fato de compartilharmos estruturas físicas básicas, procedimentos comuns, crenças, valores, ambiente natural e o mesmo contexto sócio-político, nos permite o trabalho, a comunicação com nossos pares, e a compreensão do que expressam. Mas isso também limita nosso repertório de ações e convicções, o que significa que estamos de certa maneira sempre atados a um mundo.

O mesmo ponto de vista afirma também que crenças filosóficas vão sendo adquiridas de modo não controlado e não consciente. Para os autores da orientação corpórea, todos os nossos atos são marcados pela aquisição continua e pela expressão de uma série de pressupostos filosóficos que nos conectam com nosso contexto cultural, e que em grande medida são gerados maneira tácita, despercebida. Da mesma forma são produzidos os valores morais e os hábitos de conduta. Enfim, a cada experiência criamos novos sentidos, mas também contribuímos para a conservação individual e coletiva de modos característicos de pensar e agir.

Com base nestas concepções, podemos identificar uma imagem de ciência dada pela orientação corpórea das ciências cognitivas. A ciência é compreendida, segundo esta perspectiva, como uma atividade em que as experiências propriamente científicas ocorrem em meio a outros tipos de experiências pessoais, e todas elas são marcadas por processos racionais integrados por emoções, crenças filosóficas tácitas, imaginação, metáforas e analogias corpóreas. Assim, a ciência é um modo de pensamento e ação compartilhado por grupos de pessoas com atividades, desejos, crenças, valores e interesses semelhantes, mas não se diferencia em natureza de outras formas de conhecimento. Tem sua particularidade, mas tem muito em comum também com o conhecimento em geral. Podemos nos perguntar o que caracterizaria a ciência, então. Eu diria que, de acordo com a orientação corpórea, ela seria um modo de produção de conhecimento com traços corporais, culturais, metodológicos e filosóficos compartilhados socialmente, compreendido numa dada sociedade de acordo com o que nela se espera e exige dele.

Voltemos ao início. Falei das maneiras pelas quais a filosofia vem ao longo da história enxergando a ciência, e sugerindo à sociedade e aos cientistas modos de lidar com ela. Mas, segundo as concepções da orientação corpórea, a filosofia não poderia deixar de ser uma forma de conhecimento como as outras, apenas guardando suas particularidades. Por outro lado, ela pode ser mais do que isso: pode ser um modo de reelaboramos os conceitos e crenças que, como eu já disse aqui de diversas maneiras, estão no meio de nós. Resta saber se este é um caminho a ser enfrentado por todos, ou apenas por especialistas, e com que finalidade. Para vivermos melhor? Como cientista, você acha que há uma forma de filosofia que possa ser feita pelos próprios cientistas, que os torne capazes de fazer melhor ciência?

Respostas dos alunos

“Em minha opinião, a participação dos cientistas na filosofia relativa à ciência
é essencial para um maior entendimento dos problemas da ciência. A
compartimentalização dos saberes tornou difícil a comunicação entre as
diversas áreas do conhecimento e às vezes, não vemos as profundas
conexões que ligam as nossas áreas de atuação com as outras.

Os conceitos de ciência e cientista vêm mudando ao longo do tempo, no
sentido de que ganharam adjetivos na busca pelo conhecimento
‘dessinteressado’. Na sociedade atual que estamos imersos não imagino que
exista essa busca desinteressada já que me parece muito aceitável a
afirmação da orientação corpórea de que quando geramos conhecimento não
o desvinculamos de sentimentos, pensamentos, contexto social, etc.

Entender o papel da ciência na sociedade, mais do que isso, a visão que foi
construída por nossa sociedade do papel da ciência é questão fundamental.
A grande maioria da população acredita que a ciência é uma atividade
intelectual que nada se relaciona com o progresso tecnológico e melhoria na
qualidade de vida. Ciência e tecnologia de ponta se traduzem em uma
economia mais competitiva mundialmente e, talvez seja interessante que nos
países subdesenvolvidos essa ideia da ciência tenha sido formada e
permaneça.

É bastante intrigante pensar que a área de petróleo, por exemplo, receba um
investimento muito maior do que saúde e principalmente educação. Países
como Alemanha e Japão que tiveram praticamente que se reconstruir depois
da Guerra, tiveram a educação como base para um desenvolvimento rápido
da ciência e suas aplicações tecnológicas. É ingênuo pensar que essa
desvalorização da ciência e da educação seja mera coincidência de uma
sociedade com tantos problemas sociais.

Como então fazer ciência sem ‘deixar’ de pensar em todas as questões
sociais envolvidas em fazer ciência?

Não seria mais razoável que o cientista ao invés de se colocar “fora” dessa
sociedade se insira nela? Isso não iria melhorar as práticas para a melhoria
desta e da ciência, que por sua vez, também é parte desta?

Acredito que sim, entender e se colocar ‘dentro’ dessa sociedade e dos seus
problemas seria um avanço para que os cientistas contribuíssem e
conversassem um pouco mais com outras áreas e também com a sociedade
onde está inserido e suas necessidades.

Em outros países como EUA é fácil ver o investimento pesado em ciência e
sua valorização pela sociedade e como isso se traduz em produção de
qualidade e convertido em melhoria para a vida em geral. Pois, valorizar a
ciência é acreditar que o investimento nela feito gerará de alguma forma um
benefício.

Também é pouco convincente que os cientistas estejam presos as
instituições públicas e ganhem mal, se observarmos o seu nível de
conhecimento e tempo de formação se comparados com outras profissões.

Acredito que a ciência se diferencia no que diz respeito a sua capacidade de
modificar uma sociedade. O que estou querendo dizer com isso, é que os
avanços gerados pela ciência contribuem tanto economicamente quanto
socialmente.

Por exemplo, um jovem cientista americano, desenvolveu uma fita para testar
um tipo de câncer que supera o método utilizado em velocidade de resposta
do teste, precisão do resultado e custo. Isso se traduz em benefícios como:
maior precisão no diagnóstico do tipo específico de câncer, rapidez na
resposta dos resultados dos testes o que implica uma maior chance desses
pacientes em serem diagnosticados mais rapidamente e começarem o
tratamento, diminuição dos gastos já que o novo teste tem menor custo,
geração de lucro pela empresa que comercializará o teste, etc. Todos esses
resultados de um avanço científico não podem ser pensados como um
avanço social também?

Não estou defendendo uma ciência apenas aplicada. Estou defendendo
muito mais do que isso. Uma ciência inserida em uma sociedade, e está por
sua vez, entenda o papel da ciência e que espere e exija alguma coisa dela
entendendo sua importância.”                                                                                                    Adriana Carvalho Natal de Moraes

“Acredito na consciência de que há, entre a filosofia e a ciência, relações
muito estreitas e esta concepção pode ser entendida de várias formas, como
por exemplo, a forma que aponta no sentido da subordinação das ciências à
filosofia e a forma que aponta no sentido da subordinação da filosofia às
ciências. Esta última, no entanto, em termos de fundamentos, e de objetivos
uma subordinação que, podemos entender perfeitamente, no sentido de que
nem sequer é entendida como subordinação, já que os homens que faziam
‘ciência’ se consideravam e se designavam a si próprios como ‘filósofos’ e a
‘ciência’ não era por eles entendida senão como parte da ‘filosofia’.

Mas ciência e filosofia têm os seus campos bem distintos, pois se a
primeira tem como objeto o conhecimento da natureza, cabe à segunda, por
outro lado, determinar as condições e os limites desse conhecimento. E apesar
de possuírem funções diferentes, são bem complementares. Assim, à filosofia
cabe a especulação sobre ‘as ideias fundamentais’ e, à ciência, ‘a observação,
a experiência e a indução dos fatos’.

Acredito que a filosofia pode ter seus atributos reconhecidos em antes e
depois da ciência. Antes, como campo gerador e orientador das hipóteses
científicas e depois, como interpretação dos resultados das ciências, ou seja,
pode-se pressupor que é possível, ao filósofo, ir acompanhando, de forma mais
ou menos aprofundada, os desenvolvimentos que vão se fazendo nos vários
campos científicos.

De fato, atento para uma relação entre filosofia e ciência que não pode
ser traduzida por seus mundos em separado, mas sim pela integração. E isso
pode ser traduzido no fato de que, por um lado, a filosofia pode assumir
características científicas e de, por outro, a ciência pode assumir seu lado
filosófico.

Acho que a sociedade vive hoje, um período onde o pensamento está
voltado para a técnica devido ao fato de este tipo de conhecimento ser capaz
de oferecer respostas aparentemente incontestáveis, possibilitando assim,
certa certeza sobre a verdade do conhecimento e consequentemente uma
aparente resolução do problema. A filosofia, por sua vez, não traz essa certeza
sobre a verdade, não possui esse caráter de solucionar um problema de forma
a torná-lo incontestável, trazendo questionamentos e impulsionando o filósofo a
buscar a verdade, sendo que essa verdade está sempre em progresso, em
evolução, despertando o filósofo a conceitos que antes não havia percebido.

Por causa da mutabilidade das respostas que a filosofia traz para aquele
que a estuda, acaba-se por acreditar que o pensamento filosófico possui menor
importância que o científico.

Para se chegar a uma resposta sobre se há uma forma de filosofia que
possa ser feita pelos próprios cientistas, que os torne capazes de fazer melhor
ciência, é necessário observar que a resposta para essa questão não é
encontrada apenas nos conceitos antigos e pré-estabelecidos do que seria a
filosofia, mas sim na atitude sobre a filosofia, ou seja, questionar o que é
filosofia e debater seu significado buscando suas conclusões, já que sempre se
pode chegar a novas conclusões e conhecimentos a partir de indagações
filosofadas no passado, mas sempre aliada ao estudo do desenvolvimento das
ciências de uma forma integrada com a filosofia.”                                                                    Aline da S. Rosa

“TEXTO ‘Por uma ciência mais corpórea’, por Tom Lemos.

Ao final do texto uma pergunta foi feita aos alunos do curso: ‘Como cientista, você
acha que há uma forma de filosofia que possa ser feita pelos próprios cientistas, que
os torne capazes de fazer melhor ciência?’

Se por um lado a filosofia se diferencia da ciência por utilizar métodos pouco
ortodoxos para a sociedade científica, seus argumentos racionais lhe aproximam
daquilo que, por principio, é a essencia da ciência.

Adquirir conhecimento, a partir da pesquisa, não se baseia somente em seguir um
método científico, que não é suficiente. A interpretação dos dados e o
desenvolvimento de ideias a partir dos dados brutos extraídos dos experimentos é
aquilo que formam as descobertas científicas. Dentro deste contexto parece
impossível seguir o que seria o ideal da ciência, onde o conhecimento é gerado livre
de pré-conceitos (conhecimento ‘puro’). Interpretar as observações obtidas durante o
processo científico é impossível sem que se leve nenhuma bagagem emocional ou
mesmo intelectual. Em ciência a utilização de referencias como dados previamente
observados suporta as descobertas, e mais do que isso, chega a viciar algumas
interpretações. Talvez libertar-se deste lugar comum seja essencial para que a ciência
consiga se reinventar, e ainda sim se manter dentro de sua essencia. O texto redigido
pelo Tom deixa claro que tudo aquilo que se destina a ser simplesmente cognitivo,
nunca deixará de ser influenciado pelos fatores afetivos. Então porque com a ciência
deveria ser diferente? É óbvio que não é. Assim, ciência e filosofia são
complementares, o que significa que uma não deve estar em posição ‘hierárquica’
superior a outra. Não cabe a filosofia ditar as regras e valores da ciência, e não cabe a
ciência se isolar da influência exercida por outras culturas e ideias. Mesmo que estas
ideias sejam anticientistas. Isso pode fazer a diferença entre a ciência boa, que se faz e
esta dando certo, de uma ciência melhor, que tem um diferencial por ser menos
pragmática e mais observadora. Trazer da filosofia elementos como a metafísica e a
lógica para a ciência podem aumentar a compreensão do mundo, do homem e das
interações entre eles. A quebra dos paradigmas e a inovação só podem ser alcançados
a partir do pluralismo metodológico, assim como o melhor entendimento do mundo
atual. A ciência tradicional não deve se bastar em perseguir e deter o poder sobre a verdade, deve estar aberta aos questionamentos simples e as ideias mais complexas.” Carolina Moura Costa Catta Preta

“O autor pergunta se existe uma forma de filosofia que possa ser feita pelos
próprios cientistas que os tome capazes de fazer melhor ciência. Em qualquer tema,
dizer que vivemos em um momento distinto é lugar-comum e serviria para qualquer
ponto da história da humanidade. No entanto, arrisco-me a incorrer no lugar-comum e
iniciar meu pensamento sobre esse pretexto. ‘Vivemos em um momento distinto’.
Talvez erguido sob a luz de uma relativização exagerada fruto de ares pós-modemos,
causa ou conseqüência de uma banalização cultural fomentada pela grande mídia, creio
que, como sociedade, tenhamos deixado de lado o direito à reflexão em troca do direito
ao controle remoto. Em tomo da grande mídia, nossos pensamentos foram moldados e
unificados. Hoje não formamos um sociedade pensante, mas uma massa de cidadãos
passivos que absorve o que lhes é fornecido.

Nesse momento, não existe mais o conceito de ‘virtude pela virtude’. Passamos
a enxergá-las como ferramentas, e a pesar, num pragmatismo latente, as perdas e ganhos
referentes ao aprendizado e utilização de cada uma. Assim, o conceito de areté parece
ter sido deixado de lado na formação do indivíduo. Não se busca formar indivíduos
questionadores, mas sim profissionais preparados às demandas do mercado de trabalho.
Sob esse mesmo ponto de vista pragmático, um dos problemas que surge é que é
impossível um sistema unificado prever (e suprir) todas essas demandas, e as mesmas
teimam em não formar um corpo constante ou imutável. Por outro lado, virtudes
absolutas foram deixadas de lado. Creio que um dos resultados dessa relativização é que
– agora utilizando a primeira pessoa para me referir a nós, pesquisadores – nos
formamos carentes em conceitos. Ao longo do ensino fundamental e médio, são
formados cidadãos com baixa carga teórica e análise interpretativa, e pouco é feito (ou
pode ser feito) para compensar esse déficit no ensino superior. Se para Platão a
Matemática caminhava junto à Filosofia, quase não há Matemática nos cursos da área
biológica – e também não há Química, Física, Lógica ou Filosofia (entre outros). Assim,
muitas vezes apenas fazemos e repetimos. O procedimento científico é feito sem análise
das suas raízes – nomes como o de Descartes, Francis Bacon ou de Karl Popper não
fazem parte das discussões da graduação – nem compreensão dos princípios de Ciências
Puras envolvidos.

Mas o que a Filosofia poderia fazer pelo cientista? Acredito que o resgate dos
conceitos da Ética dos antigos, e com ele o conceito de areté, deva ser algo a ser
trabalhado na formação do indivíduo. O cientista deve buscar o conhecimento antes de
tudo pela alegria do conhecimento. Assim, ele deve ser aquele interessado em buscar
conhecimento fora do seu campo de aplicação prático (e momentâneo). Talvez
possamos com isso formar um corpo de cientistas que busquem compreender suas
limitações, inclusive as menos evidentes, e tentem compensá-las. Ainda, sem abandonar
o trabalho cientifico, uma outra parcela desse grupo voltarão os olhos à Filosofia, e
reabriremos um debate sobre os limites dos modelos epistemológicos que utilizamos,
suas incoerências e qualidades.”                                                                                                  Fabio Mendonça Gomes

“Existe algo que distingue o homem das demais espécies. E sem dúvida é sua capacidade de raciocinar, pensar, refletir e aprender. Heidegger afirma que a ciência pertence à existência do homem, ou seja, esta intimamente relacionada com este. Segundo este autor a ciência é um tipo de verdade, um desvelamento do ser-aí, ou seja, um modo da existência humana. E pelo que sabemos, de alguma forma, o conjunto dessas características é o que diferencia o homem das outras formas de vida no planeta terra.

Analisando a história da espécie humana no planeta terra, podemos ver claramente a relação deste com a ciência. Em algum momento da história, cerca de doze mil anos atrás, segundo alguns autores, houve os primeiros indícios da domesticação das plantas e início da revolução neolítica. De alguma forma, o homem, a partir da observação, indução, verificação e experimentação, concluiu que dentro de uma semente havia a possibilidade de uma nova planta. Podendo então criar as condições necessárias para seu  desenvolvimento, através das plantações e conseqüente aumento da oferta de alimento. E este fato sem dúvida foi determinante para a sociedade que conhecemos hoje. Outros exemplos podem ser citados, como a criação da escrita. Todos obtidos através desta ciência que compõe muitas a essência do ser humano.

Ligado a história do homem na terra, a ciência se transformou. Obviamente, diferentes eventos demarcaram essa transformação. E hoje, oriundo do pensamento ocidental, vivemos em uma sociedade onde o pensamento é fragmentado, por exemplo, caos e ordem são concebidos separadamente. Essa forma de pensamento da separação, fez com que certo tipo de pensamento disjuntivo, dissociativo, analítico ocidental, se tomasse o motor fundamental para o conhecimento. Portanto, algo que sempre caminhou junto como a filosofia e a ciência se separou. Dentro desta lógica há uma grande separação entre as áreas do saber, entre as ciências da natureza e entre as ciências ditas humanas. Ainda dentro deste contexto, a ciência se hiperespecializou gerando dados que muitas vezes vão compor bancos de dados, não se integrando aos outros fragmentos do quebra-cabeça, fazendo com que não possamos compreender a nós mesmo.

O fato é que o homem possui uma natureza cultural, psicológica, biológica, física e “espiritual”. E não podemos compreender essa unidade multidimensional porque tudo isso está separado e desmanchado. O conhecimento é para ser refletido, pensando, discutido e incorporado. A perda da reflexão do próprio cientista, gerada pelo afastamento entre as ciências e a filosofia é algo triste, se compara com o cachorro que está muito feliz e orgulhoso da coleira que usa no pescoço. Seria a recusa de se conscientizar da perda da possibilidade de refletir. Sendo assim, a filosofia deve ser incorporada a cada dia mais pelos cientistas, bem como a prática científica deve ser cada dia mais abordada pela filosofia, fazendo com haja uma intercessão importante entre os dois campos.

Desta forma é de fundamental importância a concepção de uma re-integração dos campos dos saberes. Não que as especializações sejam ruins… mas que elas dialoguem com a o restante dos fragmentos do quebra-cabeça e visem dar conta da complexidade que é o natureza humana e do ambiente que nos cerca. Alguns autores têm abordado o tema da complexidãde. Segundo Morin, o pensamento complexo tenta ir contra o pensamento multilante que é enraizado na sociedade ocidental, como pode ser ilustrado em no seu livro Ciência com Consciência, onde este cita: ‘e tentarmos pensar no fato de que somos seres ao mesmo tempo físicos, biológicos, sociais e psíquicos é evidente que a complexidade é aquilo que tenta conceber a articulação, a identidade e a diferença de todos esses aspectos, enquanto o pensamento simplificante separa esses diferentes aspectos, ou unifica-os por uma redução mutilante. Portanto, neste sentido é
evidente que a ambição da complexidade é prestar contas entre disciplinas, entre categorias cognitivas e entre tipos de conhecimento’.

Desta forma, o cientista deve ser apoderar da filosofia e da capacidade de reflexão que esta
viabiliza, estimulando um pensamento complexo. Para tanto, o cientista deve se libertar das coleiras colocadas em seu pescoço pela especialização e entrar em contato com as diferentes formas de manifestação da ciência e do conhecimento, tais quais as ciências humanas, a sabedoria popular, as artes, a música e obviamente se conectar a si próprio, a seu corpo, suas intuições e imaginação. Parece muito difícil agir como cientista e se integrar ao mundo entretanto isso precisa começar aos poucos, dia após dia. Não como um fim único. Mas como um desafio.”                                                                                              Felippe Mousovich Neto

“Primeiramente, acredito que ‘fazer melhor ciência’ já é algo, em si, que
pode ser muito controverso. Parte do princípio que atualmente a ciência é mal
feita? Acredito que não, não seja essa a ideia, mas é algo a se pensar. É claro
que tudo sempre pode melhorar, mas diante dessa questão fiquei muito
pensativa. Quando penso em melhorar o modo de se fazer a ciência, penso no
que já foi considerado fator externo, porém hoje sabemos que está, de alguma
maneira, influenciando nas próprias perguntas: o investimento como forma de
influenciar a escolha do objeto de estudo. Acredito que a ciência resume-se, de
modo simplório, em questionamento. O livre questionar, em minha opinião,
deveria mover e impulsionar muito mais pessoas para as respostas e,
consequentemente, para o desenvolvimento como um todo, do que a intensa
pressão por resultados que vem do investimento. Assim, uma maneira de
melhorar a ciência seria saindo desse sistema de pressão por produção
quantitativamente e valorizar mais o lado qualitativo. Pois algo muito comum é
ver cientistas iniciando a carreira optando por laboratórios (apesar de
preferirem outra área de estudo) simplesmente porque eles publicam mais. O
que esse sistema está gerando (cada vez mais) são pessoas que, muitas
vezes, nem pensam no que fazem. Apenas fazem, sem questionar, sem tentar
entender. Já ouvi algumas vezes o discurso (antes do início do experimento):
‘se der errado, a gente publica também, não tem problema’. Mas se issojá está
acordado antes do fim do experimento, se esse é o objetivo, até onde teremos
garantia que aquilo está sendo feito para responder uma pergunta ou se será
feito meramente para poder ter mais uma publicação? O estudante vai parar e
pensar se errou em algum método, se existe um porque para o resultado
encontrado? Porém, a gente chega a uma questão, inclusive levantada em sala
de aula, então qual seria a alternativa para se fazer melhor ciência? Desde
então venho me questionando a respeito e confesso que não saberia chegar a
uma conclusão, digamos, realista.

Mas minha resposta é que eu não acredito que seria a melhor opção
existir uma filosofia formada apenas por cientistas com essa intenção. É difícil
ver problemas quando você está no meio deles. O olhar externo crítico é
extremamente importante. Eu concordo com a opinião de Feyerabend
(CHARLMERS, 1997), sobre a liberdade metodológica ser importante para os
cientistas fazerem ciência, ou seja, não caberia ao filósofo ditar regras. Mas ao
mesmo tempo apoio a ideia de Rorty (RORTY 1999) de que seria pior para a
própria ciência caso cientistas se fechassem em uma ‘sociedade exclusiva’.
Como eu disse, acredito que a base da ciência tem que ser o questionamento e
como poderia haver as inquietações em mundo cada vez mais restrito de ideias
e opiniões muito fechadas? Principalmente para as explicações, para entender
os resultados é importante possibilitar a aceitação de outras opiniões ou
argumentos. Muitas vezes alguém pode ver algo, que por você já estar imerso
nesse mundo, não foi capaz de ver. A troca tem muito valor. Além das opiniões
externas, quanto maior seu conhecimento, maior sua capacidade de discursar
e entender diferentes assuntos. Eu acredito que a participação dos filósofos é
essencial, principalmente, quando se pensa que o real valor de se existir uma
filosofia que busca esse melhor jeito seria, justamente, a discussão que isso
traz. A filosofia, com seu papel de reelaborar conceitos, pode, digamos,
provocar reflexões a respeito da prática científica, enquanto os cientistas
tendem a não ir contra algo que fazem. Os frutos dessa discussão, para cada
cientista internamente, ou mesmo para a sociedade cientista, levantando
questionamentos a respeito do sistema que hoje existe, da prática que se
possui e do motivo pelo qual se faz ciência, seria o que mais se aproxima, na
prática, de se ‘fazer melhor ciência’.Fernanda de Oliveira Caires

“Como cientista a ser provocada, eu poderia responder a esta pergunta
com um expressivo sim pois, quem melhor do que cientistas para saber o que é
a melhor ciência e como executá-la de modo idôneo? Mas, admito que após os
nossos encontros, fui estimulada a “baixar a guarda” e a pensar de um modo
diferente sobre o que é ciência e a melhor maneira de executá-la.

Parafraseando Napoleão Bonaparte, acredito que neste caso
necessitamos ‘dividir para conquistar’. Nós cientistas (e não isento os filósofos
da ciência!) estamos incrustados de fatores externos (sociais, econômicos,
históricos, espiritualistas etc.) que interferem a todo momento com nossas
atitudes e, o mais interessante, é que muitos de nós não são capazes de
enxergar isto! Antes de atingirmos à ‘melhor ciência’ (se é que ela existe),
necessitamos primeiro atingir o foco primo, ou seja, o nosso real objetivo ao fazer
ciência. Porém, com sinceridade, acho que se tentarmos descobrir qual é o
verdadeiro e real ‘foco primo’ da ciência, nossas respostas também estarão
repletas de opiniões, sentimentos, vivências. O que quero dizer com estas
implicações é que não conseguiremos sozinhos: é nesta hora que entram em
cena a Filosofia e seus filósofos que, há milênios, buscam o entendimento do
Logos tendo que considerar o Ethos (‘caráter’) de diferentes povos com suas
mais diferentes crenças.

Se há uma forma de filosofia que possa ser feita por nós cientistas? Sem
dúvida que há! Necessitamos apenas descobrir qual é! Ao libertar, tanto a
Filosofia da exclusividade das Ciências Humanas, quanto a Ciência do nosso
meio acadêmico excludente, estaremos dando o primeiro passo! Chegou o
momento de realmente unirmos forças! Não mais nos rotulemos de cientistas ou
de filósofos da ciência! Todos nós estamos em busca do que somos e de nossa
real tarefa neste mundo. Acredito que o que precisamos fazer é discutir, discutir
e discutir. Ao ‘dividir’ nossas opiniões, dúvidas, medos, esperanças etc.
‘conquistaremos’ espaço e, assim, quem sabe possamos realmente extrapolar
as palavras do cientista Antoine Lavoisier – ‘na natureza nada se cria, nada se
perde, tudo se transforma!’ – inclusive a própria Ciência e, de modo não menos
importante, a própria Filosofia.”                                                                                                  Lissa Catherine Reignault de Souza Barros Moreira

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