Congresso conjunto ESOCITE/4S – 2014 – relato de Heráclio Tavares

Olá a todos.

Minha ida a Buenos Aires para a participação no evento conjunto da 4S e da ESOCITE (Society for Social Studies of Science/ Sociedad Latinoamericana de Estudios Sociales de la Ciencia y la Tecnología) foi bem proveitosa. Foi meu primeiro evento internacional e eu estava ansioso para ver o nível das apresentações dos profissionais das universidades dos países chamados centrais. Além disso, era minha primeira ida a Buenos Aires. Minha mulher foi comigo para B.A., pois ela teve um congresso na semana seguinte a da 4S/ESOCITE. Ficamos 10 dias em B.A. Cheguei ao Rio ontem à noite. Portanto, meu relato é uma mescla de participação em um congresso internacional com turismo de bolsista (é bom ressaltar) que procura comer e beber razoavelmente bem.

Há tempos eu só viajo pelo Airbnb. Os mais novos devem saber o que é isso. Já os viajantes mais experientes, talvez ainda não saibam. Prefiro viajar desta forma porque é realmente mais barato e você tem a sensação de estar em um “lar”, perto de pessoas que vivem no local. Peguei um apartamento em São Telmo, que ficava a cinco quadras do hotel do evento da 4S/ESOCITE. Bairro charmoso, tradicional e cheio de vida portenha. Vi que trocar dinheiro pelo câmbio oficial não era uma boa e fui para a Calle Florida atrás de um cambista. Apesar de a prática ser ilegal, ela é realizada aos berros no meio da rua. Você escolhe um cambista, ele te leva para uma lojinha em alguma galeria e pronto. Tudo muito tranquilo. Troquei 1 Real por 5,3 pesos na primeira vez e por 5,5 na segunda. O câmbio oficial era de 1 Real = 2,6 Pesos. Obviamente que para ir para o câmbio paralelo você tem que ter, no mínimo, uma ideia de como seria fazer isso na Rua Uruguaiana, no Centro do Rio, por exemplo. De todo modo, a economia dos hermanos está quebrada. Se não me engano, minha leituras do La Nacion indicam que houve uma inflação de cerca de 40% nos itens de cesta básica de 2013 para cá e as reservas deles estão no buraco. Dólar? Só não mão de gringo e cada um vale 13 Pesos no dia que eu vim embora.

Bom, sobre meu primeiro dia de evento, estive presente em uma sessão sobre mobilidade de cientistas. Desta sessão, o que me chamou atenção foi a fala de Michael Barany por ele tratar aspectos pedagógicos da matemática na América Latina através da trajetória de Leopoldo Nachbin (eis o porquê a fala me chamou atenção), entre outros. Barany reconstruiu o périplo de Nachbin pelos EUA e associou algumas das dificuldades do trajeto a circunstâncias históricas. O trabalho, muito bem apresentado, foi bem historiográfico e não passou por questões teóricas já que este não era o objetivo, como me foi dito por Barany. A sessão teve ainda outras apresentações, que não me chamaram muita atenção. Conversei com Barany antes do evento iniciar através de um programa da 4S que coloca participantes mais antigos em contato com os novatos. Ao longo do evento nos encontramos e descobrimos temas de interesse em comum.

Depois de ter quebrado o gelo do evento, vi, durante o intervalo, que havia gente de ambos os Hemisférios, do Ocidente e do Oriente. Logo, fiquei curioso em como ia se dar a questão linguística, tendo em vista que os idiomas oficiais do evento eram o português, o espanhol e o inglês. A plenária de abertura começou e um dos organizadores disse que a única forma de se fazer um evento conjunto como aquele, amenizando o tom de “dominação” que marca discussões entre Norte e Sul era tomando os três idiomas como oficiais, pois ele não era louco de impor aos seus colegas da Argentina que eles apresentassem trabalhos em Buenos Aires falando inglês. O salão onde ocorreu a plenária contava com três grandes telas de projeção onde todas as falas e slides eram traduzidos para os três idiomas! Foi lindo.

O formato da plenária consistiu em falas de três minutos de diversos pesquisadores sobre, em linhas gerais, o papel dos STS. A grande maioria das falas sustentou que tínhamos que transformar em ações politicas nossos resultados, enfatizando o papel da multiplicidade das localidades como produtoras de conhecimento. Ok. Voltei para meu apartamento e devo ter ido jantar no Manolo, também em São Telmo, neste dia. Lugar da família portenha, onde tomei um banho de vinho da minha mulher, mas logo logo esqueci pois a comida deles era sensacional e o atendimento excelente.

Meu segundo dia de evento foi mais, digamos, profissional. Fui à sessão que submeti meu trabalho e entendi o porquê de ele ter sido remanejando para uma outra. Volto a isso adiante. De todo modo, esta sessão tinha um trabalho sobre o desenvolvimento da física experimental na USP com aceleradores de partículas e o professor Pablo Kreimer também ia apresentar seu trabalho. Chego à sala e vejo que a sessão era um encontro de velhos conhecidos. O tom descontraído foi o mote entre uma parte da audiência e os moderadores da sessão. “ahhh… eles se conhecem há algum tempo…”, pensei.  O professor Kreimer disse que todos deviam falar em seus idiomas nativos e que qualquer coisa alguém ia traduzir o que ia ser perguntado. “Puxa…”, pensei novamente, “…interessante isso.”. Mal sabia que eu devia ter esquecido essa fala, como vocês verão adiante.

O primeiro trabalho da sessão sustentou que só existem posições de trocas. Não lembro bem o conteúdo da apresentação, mas era algo que trabalhava com imagens de redes, trocas e suas assimetrias. O trabalho foi muito bem apresentado e ainda tinha slides com dados quantitativos em formato rizomático. O trabalho seguinte foi o do próprio Kreimer. Ele tratou o conceito de mobilidade e a pôs como lógica de abordagem na qual a dinâmica tem que ser analisada seguindo SHELLER e URRY (2006). Acho que vale dar uma olhada em algo destes autores. O Google me deu isso aqui como uma das respostas. Kreimer Analisou algumas tabelas com dados de investimentos em intercâmbios e não me lembro da sua conclusão.

A apresentação seguinte foi a da Tharsila Medeiros, que eu queria muito assistir. Para começar, ela adotou uma postura totalmente ao contrário da que eu adotaria. Não gostei de coisas pontuais que ela falou, tais como: para se fazer ciência era necessário ter tecnologia e a filantropia dos EUA era importante para o desenvolvimento da física nuclear no Brasil (?).  Ela focou nos aceleradores que o Oscar Sala construiu e disse que a indústria brasileira de peças teve que se aperfeiçoar para atender a demanda do laboratório da USP. Ela não deu um dado sequer sobre este aperfeiçoamento – isso me frustrou – e sua apresentação foi interrompida porque ela passara bem do tempo disponibilizado. Teve mais uma apresentação nesta sessão, que me mostrou como não se deve apresentar um trabalho. O rapaz que tinha traços fenotípicos de ameríndios chegou atrasado, não viu as falas iniciais, se posicionou em pé quase atrás da cortina e leu um texto em inglês que dava para entender absolutamente nada. Bom, eu estava doido para pegar o microfone e falar umas coisas para a Tharsila. A última apresentação acabou e o moderador abriu para a audiência.

A primeira a falar foi a professora Lea Velho. “ah… ela e’ a Lea Velho. Ela que orientou a tese da Tharsila…”, falei comigo mesmo. A professora Velho fez perguntas aos dois primeiros apresentadores naquele tom de chá das cinco com uma pitadinha de ironia, houve mais duas ponderações e o microfone me chegou às mãos. Tentei seguir o conselho do Guto e não adotei um tom de confronto. Mentira… Comecei falando que discordava da Tharsila, usei os trechos que ela mesma falou, que eu citei acima, critiquei a falta de dados e argumentei usando os experimentos com raios cósmicos em Chacaltaya e a Colaboração Brasil-Japão, nos quais Cesar Lattes estava metido.  Acho que a professora Velho já estava me olhando de cara feia (quando o microfone me foi tomado ela estava me olhando de cara feia sim) quando eu formulei a pergunta: você não teria sido ingênua em achar que só havia bons interesse na filantropia norte americana? Será que não havia algum tipo de dominação cognitiva? Na resposta, Tharsila foi bem mais educada do que eu conseguirei ser em toda minha vida. Ela sustentou que os aceleradores da USP eram de baixa energia e que serviram para treinar um monte de gente. Por fim, ela disse que imagina que deve ter tido algum tipo de tentativa de nos manter em alguma posição cognitiva controlada, mas esse não era o foco dela. Ok. Tomei um café com a moça ao final e viramos colegas de evento. Mas, achei que se o Guto já tivesse tomado um café (como me pareceu que a Velho o faz) ou uma cerveja com o Kreimer, meu trabalho teria sido aceito nesta sessão.

Voltei para São Telmo mais cedo. Eu estava preparando um texto para ler em inglês e abandonei esta ideia depois que vi o rapaz desta sessão. Eu tinha que mostrar uns slides também. Incentivado pela fala do Kreimer, resolvi chutar o balde. Adotei a ideia de falar em idioma nativo e fiz uma apresentação em Power Point em português pensando em improvisar minha fala também português. Já que o português é idioma oficial e um dos organizadores incentiva a todos a falarem em seus idiomas, vamos que vamos! Confesso que isso também foi motivado pela chair da minha sessão. Pois, eu mandei um e-mail para ela quando eu ainda estava no Brasil perguntando sobre como ela pensava em organizar a sessão e ela não me respondeu. Acabei de montar minha apresentação lá pela uma da manhã e fui ao El Federal tomar uma cerveja artesanal e tentar relaxar um pouco. Ainda voltei ao El Federal para tomar café da manha outro dia.

Meu terceiro dia de 4S/ESOCITE começou depois do almoço. Fui para a sala da minha sessão e lá conheci a professora Shen (uma economista chinesa), que era a chair. A doutora Shen me perguntou em que idioma eu ia falar. Eu disse que em português. Ela me perguntou em que idioma estava minha apresentação em Power Point. Eu respondi que em português também. Ela então me perguntou se eu não poderia traduzir minha apresentação e falar em inglês. Olha… sabe aquela hora que você pensa que se deu mal? Foi o que eu pensei. Bom, aceitei fazer o que ela me pediu, mesmo sabendo que… na verdade, eu não sabia mais nada. Sabia apenas que eu tinha que traduzir os trechos escritos (com citações de fontes primarias e tudo) em português de 12 slides e ainda ter que improvisar minha fala em inglês. Eu estava ferrado no meu primeiro evento internacional.

A professora Shen foi a primeira a apresentar o trabalho. Não me interessei pelo o que ela falou, mas a audiência sim. A doutora Shen recebeu uma três ou quatro questões. Minha vez chegou e acho que o nervosismo estava bem grande. Expliquei ‘a audiência que minha fala ia estar um pouco prejudicada pelo exercício linguístico que eu ia ter que fazer, pois ele não estava programado. Esta foi a maior lição que tirei deste evento: congresso internacional, slides ou leitura de texto OBRIGATORIAMENTE em inglês! Improviso? Deixar para eventos nacionais por enquanto. A audiência foi compreensiva e interessada. Recebi três ótimas perguntas:

1 – sobre a minha escolha do conceito de virtude epistêmica do Galison e da Daston;

2 – sobre os aspectos pedagógicos da física no Brasil a partir das experiências do Lattes;

3 – sobre a tal “descolonização da física brasileira”, que dava nome ao meu trabalho e não apareceu na apresentação.

Na hora em que respondi ‘as questões, eu estava mais relaxado e acho que fui melhor do que na apresentação. A audiência balançava a cabeça positivamente enquanto eu ia falando e isso me tranquilizava. A que deu certo trabalho foi a questão sobre a descolonização epistêmica, feita por um rapaz que estudou com o Springer de Freitas e com Callon e que o Guto esteve na banca de mestrado. Na minha resposta, associei o acordo de 1952 entre Brasil e os EUA ‘a imposição do modelo de 1/8 do acelerador de Chicago. Construí um argumento de que a aceitação desta máquina sem o aval do conselheiro científico do CNPq (Lattes) poderia ser um indício de uma imposição de um modus operandi de se fazer física de partículas. Em linhas gerais, tentei argumentar que a imposição de um North American way de se fazer física através dos aceleradores não foi aceito por Lattes e a CBJ mostra isso, sendo uma resposta local ‘a Big Science. No evento, esta ideia meio que “colou”. Mas, penso que devo aprofundar os motivos que nos levaram a aceitar este modelo de se construir conhecimento em física de partículas. Demorei uns dois dias para achar que fui razoável na minha apresentação. Acho que fui ao Hipopotamo jantar neste dia e concluí que em termos de produção de conhecimento, nosso grupo está à altura de grupos de estudos dos países chamados de “centro”.

Bom, depois da minha apresentação, achei que estava bom de 4S-ESOCITE. Logo, tirei o final de semana para descansar, falar portunhol pelas ruas, andar de coletivo, de metro, ir a cinemas da rede INCAA e me perder pela cidade mesmo usando mapa. Por fim, lembro que fui ao El Paraiso, no Caminito, quando fui ver o La Bombonera e um dos últimos locais que comi foi no Café Rivas, que fica melhor depois das 21:30, quando começa, diariamente, o show do pianista.

Abraços

Heráclio.

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Sobre estudosdects

Oficializado junto ao CNPq em 2010, este grupo existe informalmente desde 2004, ano em que o prof. dr. Antonio Augusto Passos Videira começou a ministrar disciplinas no Programa de Pós-Graduação em Filosofia especificamente voltadas para os problemas, temas e autores dos chamados Science Studies. O objetivo, ao ministrar tais disciplinas, era apresentar aos alunos do PPGFil uma nova perspectiva para a análise da ciência que abarcasse outros eixos teóricos que não apenas aqueles tradicionalmente empregados pela Filosofia. Esses outros eixos temáticos incluem a História e a Sociologia das Ciências. No entanto, e diferentemente do que se pode esperar da perspectiva dos Science Studies, o grupo em torno do prof. Antonio Augusto Videira considera relevante analisar a ciência a partir das suas implicações e/ou pressupostos ontológicos e metafísicos. Desse modo, ocorre também uma ampliação no recurso que se faz da Filosofia, uma vez que esta última não se resume à Filosofia da Ciência. Em outras palavras, a ciência é mais do que apenas um tipo específico de conhecimento sobre a natureza.
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Uma resposta para Congresso conjunto ESOCITE/4S – 2014 – relato de Heráclio Tavares

  1. Tharsila de Medeiros disse:

    Oi Heráclito! Aqui é Tharsila de Medeiros. Gostaria que você me desse um feedback sobre suas críticas antes de citá-las publicamente na internet. Creio que você não deve ter lido minha tese inteira. E apresentá-la em 15 minutos foi uma tarefa quase impossível, visto o enorme período que o estudo abrange. Você possui meus contatos! Um abraço!

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