II Congresso da SFU – Relato de Antonio Augusto Passos Videira

II Congresso da SFU – Montevideo – 11 a 16 de agosto de 2014

Antonio Augusto Passos Videira

Pouco assisti.  O programa pareceu-me bem desinteressante. Muitos alunos brasileiros e talvez uruguaios. Muita coisa sobre Foucault, Heidegger e assuntos que não me interessam, ao menos na abordagem sugerida pelos títulos. Também não assisti nenhuma plenária. Volto a isso mais abaixo. Assisti, por amizade, os trabalhos do Frank Sautter e do Róbson. Se eu ainda me lembro, o Frank falou sobre o uso de diagramas para negar. Ele domina o assunto e expõe com clareza. Para quem gosta de lógica, muito bom. O Róbson, como sempre, apresentou apenas uma parte do seu trabalho. Não falou sobre a parte dedicada a Heidegger, mas, sim, sobre aqueles filósofos, que o precederam no século XIX e que também trataram da negação. Uma série de filósofos alemães importantes dos oitocentos. Precisaria consultar o texto dele para me lembrar dos nomes. Trabalho muito profissional, mas eu achei pouco interessante. Isso me fez assistir outras apresentações da mesma sessão, que era destinada à apresentação dos resultados de um convênio internacional entre universidades brasileiras e a uruguaia: Universidade da República do Uruguai (UDELAR). Não sei se havia alguma universidade argentina no convênio. O tema geral do convênio era a negação. Assisti o trabalho de um pós doc da PUC, Sérgio Schultz, ex-aluno do Chateaubriand. Trabalho bem feito (i.e. profissional), discutindo, se eu não dormi muito, alguma proposta relativa à negação. Assisti também um tal de Ronald, professor na UDELAR, texto pouco inovador sobre Russell e Frege. Muitas páginas, muitas citações e leitura rápida. Em suma, um filósofo típico. Fugi antes que me entediasse ainda mais. Além disso, o Chateaubriand já nos tinha informado da morte do Eduardo Campos.

Além dessa sessão, assisti um ex-aluno da Maura Iglésias, Daniel, que está como pós doc na UFPEL. Filosofia antiga. Aristóteles e a noção de contrato. Acho eu, pois cheguei muito atrasado. Pareceu-me interessante o tema. Assisti também o Ronai Pires da Rocha, que apresentou um texto sobre Wittgenstein e a divulgação científica. No Livro Azul, Wittgenstein critica alguns físicos, que, tomando como base resultados da física, propunham conclusões metafísicas fortes. Os alvos do filósofo austríaco eram J. Jeans e A. Eddington, físicos muito famosos naquela altura. Eu gostei muito. O texto era muito mais histórico e menos filosófico. No entanto, aprendia-se muito. Além disso, estava em sintonia com o que eu apresentei no dia seguinte. Poucas perguntas, aliás, como sempre. Pouco tempo para apresentação e ainda menos para discussão. A regra nos dias que correm.

O meu trabalho recebeu o mesmo destino da maioria dos que já apresentei em congressos de filosofia: silêncio entediado. Só o Ronai falou e porque eu li uma citação do Bohr, escrita à mesma época do texto do Wittgenstein, e que vai na mesma direção do seu texto. Bohr critica aqueles cientistas que rapidamente deixam de procurar dados empíricos (cada vez mais difíceis de serem obtidos) e passam a se guiar por especulações metafísicas. Em suma, eu e os filósofos não nos entendemos. Na minha sessão, dois outros trabalhos da mesma dupla de argentinos sobre filosofia da ciência: realismo estrutural e o papel da inferência para a melhor explicações. Os dois jovens leram muito e fizeram muito boas revisões bibliográficas, mas não apresentaram nenhuma tese própria. O primeiro trabalho suscitou discussão graças a mim.

Bem, chego agora à parte final do meu relato, que poderia se chamar: não deixem de prestigiar os grandes nomes, mesmo eles podem nos surpreender. Não assisti a Susan Haack, pois o título “La fragmentación de la Filosofía: el camino a la reintegración” não me interessou obviamente. No dia seguinte, encontrei o Róbson, que, tendo visto o que fora apresentado por ela, tirou sarro da minha cara. Como ele estava querendo me gozar, e havia outras pessoas com ele, o relato que me fez é breve.

Em poucas palavras, tudo aquilo que eu falo da filosofia desde que vocês me conhecem e antes disso, foi dito por ela. A filosofia, em particular a filosofia analítica, vive de agendas temáticas falsas e desinteressantes que só servem à promoção profissional dos seus adeptos. Os filósofos são hiper-especializados, o que não lhes faz bem. Os filósofos são como patos que correm atrás de migalhas atiradas por aqueles que têm dinheiro e influência. Precisam voltar a dialogar com os cientistas e com o mundo. Talvez esteja aqui a sugestão de como a filosofia deveria se reintegrar. A Haack ainda acredita na filosofia, é claro, mas esta última tem que passar por reformas profundas. Parece que o Chateaubriand tentou, ao final da palestra, insinuar que a nossa realidade é diferente devido às agências de fomento e que, assim, as críticas dela não nos afetavam.

É claro que o meu “relato”, é pouco rigoroso, uma vez que eu, por preconceito, não assisti a palestra. Mandei mal, como vocês dizem entre si. Depois do relato do Róbson não ouvi mais ninguém comentando as palavras da Haack. Creio que aqui não exagero, pois penso que elas devem ter caído muito mal. De todo o modo, eu fiquei satisfeito pessoalmente em saber que ainda há vida inteligente na Flórida. Afinal, somos tão poucos…

Anúncios

Sobre estudosdects

Oficializado junto ao CNPq em 2010, este grupo existe informalmente desde 2004, ano em que o prof. dr. Antonio Augusto Passos Videira começou a ministrar disciplinas no Programa de Pós-Graduação em Filosofia especificamente voltadas para os problemas, temas e autores dos chamados Science Studies. O objetivo, ao ministrar tais disciplinas, era apresentar aos alunos do PPGFil uma nova perspectiva para a análise da ciência que abarcasse outros eixos teóricos que não apenas aqueles tradicionalmente empregados pela Filosofia. Esses outros eixos temáticos incluem a História e a Sociologia das Ciências. No entanto, e diferentemente do que se pode esperar da perspectiva dos Science Studies, o grupo em torno do prof. Antonio Augusto Videira considera relevante analisar a ciência a partir das suas implicações e/ou pressupostos ontológicos e metafísicos. Desse modo, ocorre também uma ampliação no recurso que se faz da Filosofia, uma vez que esta última não se resume à Filosofia da Ciência. Em outras palavras, a ciência é mais do que apenas um tipo específico de conhecimento sobre a natureza.
Esse post foi publicado em II Congreso Internacional de la Sociedad Filosófica del Uruguay, Participações do Grupo em eventos e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s