Entrevista com Mae-Wan Ho

Paul Haeder
Jornalista de DissidentVoice e Professor de Comunicação (Tradução: Julia Noble)
Mae-Wan Ho é geneticista e escritora científica, crítica da engenharia genética, co-fundadora do The Institute of Science in Society – ISIS. Autora de The Rainbow and the Worm, the Physics of Organisms (1993, 1998), Genetic Engineering: Dream or Nightmare? (1998, 1999), e Living with the Fluid Genome (2003), entre outros.

Como está o debate sobre OGMs, agora, mundialmente?

O debate em torno dos Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) já deveria ter terminado, num momento em que as falhas agronômicas dos OGMs estão à mostra para todos verem (particularmente nos Estados Unidos, país que possui mais de 40% dos plantios de OGMs do mundo), junto com graves impactos à saúde e ao meio ambiente por estudos científicos o que os agricultores já sabiam há anos (Relatório Especial do ISIS: “Ban GMOs Now”). Mas tudo isso está sendo abafado por uma campanha massiva de distorção perpetrada por revistas científicas, mesmo as tradicionalmente respeitadas (“Scientific American Disinformation on GMOs”).
Um exemplo de quão desesperados estão os defensores de OGMs foi a decisão do grupo Elsevier de retirar da revista Food and Chemical Toxicology um artigo minuciosamente avaliado por renomados cientistas – o famoso estudo do professor de biologia molecular, Gilles-Eric Séralini – porque ele encontrou graves impactos à saúde em ratos alimentados com milho GM (geneticamente modificado) e/ou expostos ao herbicida Roundup em comparação aos ratos do grupo controle. Foi então postada uma Carta Aberta para assinatura exigindo a republicação do estudo e comprometendo-se a boicotar a editora enquanto isso não fosse feito (“Open Letter on Retraction and Pledge to Boycott Elsevier”). A carta já obteve milhares de assinaturas de todo o mundo. É preciso acabar com essa censura sem precedentes no conhecimento científico e divulgar informações cruciais para o bem-estar e a saúde pública.

Por que as exigências de rotulagem de OGMs estão fracassando nos EUA?

As exigências de rotulagem de produtos contendo OGMs estão fracassando nos EUA porque as pessoas ainda estão ouvindo informações mentirosas e meias-verdades; elas acreditam que produtos geneticamente modificados não são diferentes dos similares não-GM. Houve saturação de cobertura nos meios de comunicação, não apenas nos EUA, mas no mundo todo. A maioria das pessoas não é enganada, é por isso que as plantações OGMs estão reduzidas a 28 países tendo mais de 90% da produção em apenas 5 países, tudo isso após 20 anos de crescimento comercial. Mas as pessoas precisam entender os perigos para si.

Qual é a sua maior restrição em torno dos OGMs?

OGMs não são apenas inseguros, eles são altamente insustentáveis, e acima de tudo, obstruem a mudança para agricultura agroecológica, orgânica não-GM que já está ocorrendo em comunidades locais e países ao redor do mundo. Eles já demonstraram que podem aumentar a produtividade, mitigar as mudanças climáticas, e ser mais capazes para se adaptar às alterações do clima. Eu tenho um pesadelo recorrente onde há alienígenas pousando em nosso planeta num futuro não muito distante. Ao chegarem, encontram um terreno baldio cheio de baratas gigantes. Isso é o que pode acontecer se todos nós formos enganados e forçados a plantar OGMs.

A ciência está numa encruzilhada, como você diz, sobre a exclusão do artigo do professor Séralini?

Sim, eu acho que este ato sórdido é simbólico. O estudo de Séralini não é a única evidência científica dos danos causados por OGMs e agrotóxicos, como mencionado anteriormente, nem o único artigo a ser excluído recentemente (“Over 1170 Condemn Retraction and Pledge Elsevier Boycott”). Eu mesma quase fui uma vítima por um estudo explicando porque a modificação genética artificial é inerentemente perigosa. A ordem para retirá-lo provavelmente veio da editora. Felizmente, os editores aparentemente se mantiveram firmes e publicaram meu estudo. Se não pararmos essa prática agora, ela realmente poderá significar o fim da ciência. Um cientista me disse: “pensar que se pode fazer isso me arrepia até os ossos”. Aliás, a nossa Carta Aberta obteve tantas assinaturas nos primeiros dias que os trolls pró-GM começaram a nos atacar constantemente enviando assinaturas falsas, por isso tivemos de checar cada uma. Você confiaria em pessoas que falsificam, mentem e suprimem resultados das suas pesquisas para depois dizer que o alimento é seguro para você comer?

O que o cidadão comum pode fazer para se envolver no debate de OGMs?

Entenda a ciência por trás da engenharia genética, exponha as mentiras e meias-verdades que lhe foram ditas, é assim que se aprende a verdadeira ciência, e é divertido. Não se deixe intimidar pelos “especialistas”. Organize reuniões informais de discussão (combinadas com feiras orgânicas). Envolva toda a sua família. Pense em maneiras criativas para explicar as coisas para outras pessoas. Os cientistas não são muito bons nisso, e eu me incluo aí, mas, estou dando o meu melhor.

Em sua visão, como a ciência mudou ao longo dos anos?

Eu sou uma cientista apaixonada por ciência. Isso foi o que me motivou a ser uma cientista em primeiro lugar. Ainda me inspiro pelo significado da vida, do Universo e tudo mais, as “grandes perguntas”. Hoje, esse sentimento de admiração e entusiasmo se perdeu. Ninguém mais faz grandes perguntas, eles querem saber como explorar mais a natureza. A nova genética, por exemplo, é encantadora, é completamente diferente da velha genética obsoleta que motivou a engenharia genética e suas modificações. Ela virou a genética convencional de cabeça para baixo. Ao invés de um fluxo único e linear de informação do DNA (o material genético) para os traços (função biológica) e enfim para o ambiente, há uma reação circular do ambiente e das experiências dos organismos que demarcam os genes que devem ser expressos ou não, mesmo mudando os genes em si. Eu chamo isso de modificação genética natural. É uma complexa dança molecular da vida, essencial para a sobrevivência. A modificação genética natural é feita com delicadeza e precisão pelos próprios organismos, sem danificar o genoma. Em contraste, a modificação genética artificial feita em laboratório por engenheiros genéticos é bruta, imprecisa, incontrolável, e acaba misturando e danificando o genoma com efeitos totalmente imprevisíveis na segurança. Inevitavelmente interfere também no processo natural de modificação genética, e é por isso, no fim das contas que a modificação genética artificial é inerentemente perigosa.
Eu adoraria ver mais nova pesquisa genética sendo feita. Ao invés disso, a maioria dos pós-doutorados e estudantes de pós-graduação está presa, fazendo uma modificação genética que destrói suas almas e não usa seus cérebros, quando deveriam estar pesquisando sobre como e em que circunstâncias a modificação genética natural pode ocorrer.

Porque a literatura científica sobre o Princípio de Precaução vinculado aos OGMs se tornou uma retórica anti-ciência?

Há muita falta de entendimento sobre o Princípio de Precaução. Ele é absolutamente baseado em evidências científicas. Não é anti-ciência de forma alguma, longe disso. Ele apenas diz que onde há evidência científica para um perigo, o fato de que a evidência pode não ser conclusiva não deve ser usado como uma desculpa para ignorar o perigo. Eu diria que na maioria dos casos, leva a soluções e alternativas criativas. Os críticos o usam como uma desculpa para mentes fracas. O professor Peter Saunders, da ISIS, escreveu o que muitos consideram a melhor análise sobre o assunto: “Use and Abuse of the Precautionary Principle”. Um artigo recente que responde aos críticos do Princípio de Precaução também é uma boa leitura “Caution Needed for the Precautionary Principle”.

Os empresários da engenharia genética têm a vantagem do marketing: vendem um produto que fica tão conhecido que as pessoas o aceitam como algo “normal”. Isso é verdade?

É uma guerra psicológica sutil, e alguns críticos realmente lavam suas mãos. Eles aumentam a percepção da tecnologia GM para ser a coisa mais poderosa do mundo e já se encontra em toda parte, por isso resistir é inútil. Isso leva as pessoas a se sentirem absolutamente impotentes, o que gera uma paralisia, que é exatamente onde eles querem que você esteja. É por isso que é tão importante entender a ciência por si mesma. A nova genética nos diz que é possível reverter as coisas se cuidarmos do meio ambiente, construirmos um solo saudável, sem pesticidas e outros agroquímicos, e podemos até nos livrar das pragas, das doenças, muito provavelmente até mesmo dos genes ruins, e obter os bons genes de volta.

Como define a sua pesquisa?

Meu trabalho de pesquisa centra-se na grande questão – o que é a vida – que o Nobel de Física, Erwin Schrödinger, fez em 1941. Eu fui pioneira numa forma interdisciplinar de entender a vida em dois livros: “The Rainbow and the Worm, The Physics of Organisms” e “Living H2O the Dancing Rainbow Within”. Numa Conferência sobre Cidades Sustentáveis, a ser realizada em Siena, na Itália, em Setembro próximo, pronunciarei uma aula inaugural chamada “Termodinâmica Circular de Organismos e Sistemas Sustentáveis”. Por “termodinâmica circular” entende-se “economia circular” da natureza. A palestra é sobre como viver de forma sustentável com a natureza através da nossa integração e construção na economia circular da natureza. Estou muito contente de ter recebido o Prêmio Prigogine 2014 por esse trabalho.

Há uma grande desconexão entre a natureza, indústria, tecnologia e economia?

Exatamente. Essa é a forma da ciência reducionista. Eu passei a minha vida inteira recuperando a ciência holística orgânica que realmente nos permite viver de forma sustentável com a natureza, onde o conhecimento é tudo de uma parte (arte, ciência, música, filosofia em um), e estamos imersos na natureza. A forma orgânica, holística não é apenas sustentável, é muito alegre e sustentada. Isso nos dá toda a força e vitalidade da natureza, bem como toda a sua beleza e inspiração.

As alterações climáticas são o grande fator da atualidade, e parecem sustentar as indústrias e ciências pró-OGM. Como a agricultura não-GM pode ser a resposta para alguns dos desafios que enfrentaremos devido as mudanças climáticas?

As mudanças climáticas estão definitivamente acontecendo, não há como negar. A maioria dos cientistas que nos alertam para os perigos dos organismos geneticamente modificados não são negadores (aqueles que dizem que as mudanças climáticas não estão acontecendo) ou céticos (aqueles que não acreditam que a ação humana tem algo a ver com as mudanças do clima). Por favor, não junte os OGMs com as mudanças climáticas. Costumo dizer aos céticos e negadores que ser sustentável é bom, acreditando ou não que a ação humana esteja causando as mudanças climáticas e acreditando ou não que as mudanças climáticas existam, porque estamos esgotando os recursos, por isso as energias renováveis e a economia circular estão em alta.
Há evidências de que o sistema de cultivo predominante OGM nos EUA está falhando muito (“US Staple Crop System Failing from GM and Monoculture”), e não apenas por causa da recente seca que devastou as lavouras. Isto não é surpreendente, já que os OGMs são monoculturas industriais. Os inúmeros sucessos e benefícios da agricultura agroecológica orgânica já não estão em dúvida: mais produtividade, mais matéria orgânica e sequestro de carbono no solo, terras mais férteis, mais capacidade de retenção de água (portanto, mais resistentes à seca) mais nutrição, promoção de saúde, mais resistentes a inundações e furacões, mais rentáveis e menos uso de energia, portanto, menos dióxido de carbono produzido. Não podemos deixar que as culturas GMs estraguem a nossa chance de sobreviver ao aquecimento global e todos os extremos climáticos que o futuro trará.

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Sobre estudosdects

Oficializado junto ao CNPq em 2010, este grupo existe informalmente desde 2004, ano em que o prof. dr. Antonio Augusto Passos Videira começou a ministrar disciplinas no Programa de Pós-Graduação em Filosofia especificamente voltadas para os problemas, temas e autores dos chamados Science Studies. O objetivo, ao ministrar tais disciplinas, era apresentar aos alunos do PPGFil uma nova perspectiva para a análise da ciência que abarcasse outros eixos teóricos que não apenas aqueles tradicionalmente empregados pela Filosofia. Esses outros eixos temáticos incluem a História e a Sociologia das Ciências. No entanto, e diferentemente do que se pode esperar da perspectiva dos Science Studies, o grupo em torno do prof. Antonio Augusto Videira considera relevante analisar a ciência a partir das suas implicações e/ou pressupostos ontológicos e metafísicos. Desse modo, ocorre também uma ampliação no recurso que se faz da Filosofia, uma vez que esta última não se resume à Filosofia da Ciência. Em outras palavras, a ciência é mais do que apenas um tipo específico de conhecimento sobre a natureza.
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