Os critérios de Merton-Ziman

Registro feito por Carlos Puig do artigo:

REIS, Verusca M.S. O retorno ao Ethos mertoniano na ‘ciência pós-acadêmica’ de John Michael Ziman. Revista Brasileira de Ciência, Tecnologia e Sociedade, v.2, n.1, p.194-210, jan/jun 2011.

 Fiz, para meu registro, o seguinte quadro dos critérios de Merton-Ziman para o Ethos na ciência:

 1. Comunalismo: a ciência é conhecimento público, livremente disponível a todos. Esta norma rechaça a política do segredo por um compromisso de publicação imediata dos resultados obtidos em pesquisas. Visa circulação da informação e possibilita que a norma do ceticismo organizado (norma 5) seja exercida. A imediata publicação e avaliação por pares dos resultados promovem o progresso do conhecimento. O conhecimento é comum. Essa norma é infringida com o segredo em disputas por patentes.

 2. Universalismo: os critérios para avaliação são critérios universais, dando acesso à publicação por parte de todos. Essa norma requer que os participantes da comunidade científica deixem de lado critérios pessoais ou particulares. Diz respeito tanto aos critérios para avaliação e aceitação de trabalhos científicos, quanto à possibilidade de publicação aberta a todos, que sigam os critérios universais, sem beneficiar qualquer grupo como hegemônico na possibilidade de comunicação de pesquisas científicas. Essa norma é infringida por estados totalitários e teocracias, bem como por grupos que defendem fundamentalismos ideológicos ou religiosos.

 3. ‘Desinteresse’ ou Altruísmo: a ciência é realizada como fim em si mesma. O cientista deve praticar a humildade e a honestidade e ter como único objetivo a realização da ciência como fim em si mesmo. Em outras palavras, ao dedicar-se ao empreendimento científico, o cientista não deve ter outros objetivos que não o avanço do empreendimento científico. É a norma que rechaça o ‘conflito de interesses’. Ao não aceitar que cientistas sejam pagos por contribuições específicas à ciência, como em consultorias pagas e contratos de pesquisa comissionados, a sociedade cria um ambiente em que não há estímulo à fraude de dados.

 4. Originalidade: a ciência é a descoberta do desconhecido. Os resultados de pesquisa devem ser sempre novos. Esta norma estimula o comportamento criativo e imaginativo, dando ênfase ao elemento da descoberta na epistemologia científica. É reforçada positivamente através das regras para aceitação de publicação de trabalhos, teses de doutoramento, bem como ao recebimento de prêmios, em suma, para o reconhecimento da comunidade acadêmica. O plágio é rechaçado, bem como a tentativa de repetição de publicação de um mesmo trabalho em mais de um veículo. Ocorre a valorização da serendipidade, descrita como o evento de “encontrar onde não se procurava, ou aquilo que não era procurado”.

 5. Ceticismo: os cientistas não aceitam nada cegamente. O conhecimento deve ser continuamente examinado em busca de erros com relação aos fatos e inconsistências de argumentação. A validação pela comunidade científica é dotada de altos padrões de crítica, estimulando rígida disciplina intelectual. O combate ao dogmatismo, o estímulo ao cultivo da lógica, evitando-se as falácias, a consistência das conclusões em relação aos dados, bem como a clareza e sobriedade no trato das estatísticas são características do ceticismo no ambiente científico hodierno. Essa norma e infringida quando surgem conclusões com base em dados insuficientes, ou partindo de critérios e premissas de validade questionável, e quando os dados quantificados são utilizados para defender uma posição à qual não se prestam, como no caso do uso de estatísticas de modo truculento. O ceticismo dá ênfase ao trabalho científico com base em evidências.

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Sobre estudosdects

Oficializado junto ao CNPq em 2010, este grupo existe informalmente desde 2004, ano em que o prof. dr. Antonio Augusto Passos Videira começou a ministrar disciplinas no Programa de Pós-Graduação em Filosofia especificamente voltadas para os problemas, temas e autores dos chamados Science Studies. O objetivo, ao ministrar tais disciplinas, era apresentar aos alunos do PPGFil uma nova perspectiva para a análise da ciência que abarcasse outros eixos teóricos que não apenas aqueles tradicionalmente empregados pela Filosofia. Esses outros eixos temáticos incluem a História e a Sociologia das Ciências. No entanto, e diferentemente do que se pode esperar da perspectiva dos Science Studies, o grupo em torno do prof. Antonio Augusto Videira considera relevante analisar a ciência a partir das suas implicações e/ou pressupostos ontológicos e metafísicos. Desse modo, ocorre também uma ampliação no recurso que se faz da Filosofia, uma vez que esta última não se resume à Filosofia da Ciência. Em outras palavras, a ciência é mais do que apenas um tipo específico de conhecimento sobre a natureza.
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