A beleza como sinal de verdade em teorias científicas

Resenha de Carlos Puig sobre:  MCALLISTER, James W. American Scientist, Vol. 86, No. 2, 1998, pp. 174-183.

Is Beauty a Sign of Truth in Scientific Theories? Why are some new theories embraced as beautiful, others spurned as ugly? Progress in science may require that aesthetic ideals themselves change.

 McAllister primeiro dá exemplos de cientistas que afirmaram a beleza como critério epistêmico: Dirac, Einstein, Weinberg, Watson, Boltzman, Maxwell. Depois, faz um apanhado de situações históricas em que o critério estético foi utilizado, nem sempre de modo favorável ao avanço da ciência, como no caso das elipses de Kepler, que não estavam dentro dos parâmetros estéticos esperados. Descreve a correlação feita, por parte dos cientistas, entre capacidade empírica de uma teoria e sua beleza estética. Afirma que isso funciona em período de ciência normal, mas que é contraprodutivo em tempos de revolução, tomando como base Kuhn. Faz uma analogia entre a evolução de características sexuais em espécies e as vantagens reprodutivas: enquanto algumas características esteticamente belas de caracteres sexuais podem significar vantagens de sobrevivência, havendo relação entre esses caracteres e a capacidade de manutenção da espécie, os caracteres sexuais podem deixar de estar relacionados à vantagem reprodutiva daquela espécie. Ocorre o mesmo em ciência: há uma correlação entre beleza tal como é tida pelo paradigma aceito e a capacidade empírica das teorias, mas essa beleza não necessariamente será sempre representativa dessa capacidade empírica. Pode ocorrer o contrário.

O determinismo e visualização foram parâmetros bons para a física até surgir a mecânica quântica, na qual esses parâmetros não aparecem. Cientistas como Einstein e Schrödinger rejeitaram as teorias de física quântica por não apresentarem essas características, mas são as teorias mais produtivas, defendidas por Bohr e Heisemberg.

Fiz a comparação agora com as “artes aplicadas” como a arquitetura – em que as características empiricamente produtivas, como o uso de novos materiais, são num primeiro momento rejeitadas pelos padrões estéticos, que depois de um tempo os incorporam. Dá o exemplo da torre de Eiffel e do obelisco de mármore nos EUA, ambos quase contemporâneos, representantes dos dois momentos.

Os cientistas precisam resolver o dilema de utilizar parâmetros estéticos para escolha de teorias e correr o risco de ficarem presos a uma correlação com características empíricas que já não funcionam, ou retirar todos critérios estéticos de suas teorias, ficando apenas com os empíricos, situação que deixaria as teorias sobre assuntos que dificilmente se poderia testar praticamente sem parâmetro para escolha. Utiliza pouca bibliografia.

Achei o artigo muito bom. Ele tenta resolver o assunto, embora não o faça, mas seu estilo é esse. Acho que ele faz uma apresentação bem didática sobre as questões que envolvem o tema. Deve ser artigo que apresenta de modo preliminar seu livro, que coloco na minha lista de leitura.

 

Adendo à resenha feito por André Philot

O tema discutido por McAllister me é muito caro, vide que uma das aulas do ano passado no qual fui convidado a proferir versava exatamente sobre a beleza como valor científico. Nessa ocasião utilizamos um artigo de Henri Poincaré denominado “The selection of facts”, e uma parte do segundo capítulo do livro “A teoria física – seu objeto, sua estrutura” de Duhem denominada “Teoria física e classificação natural”.

Observamos que tanto Poincaré quanto Duhem concordam que a beleza é um valor importante para a ciência, porém percebemos que eles discordam da maneira como esse valor é posto. Enquanto para Poincaré a beleza é um valor que é produzido através da seleção natural – concordando, nesse sentido, com a abordagem de McAllister -, para Duhem ela é inferida através da observação de uma classificação natural na própria ciência.

Mas as semelhanças entre Poincaré e McAllister parecem acabar aí, pois Poincaré não acredita haver uma dicotomia entre os valores de utilidade e beleza. Pelo o contrário, ele conecta tais valores de maneira indissociável, afinal, para ele, ser belo é também ser útil.

Nesse sentido poderíamos concluir em última instância e de maneira grosseira que cada um dos autores se compromete com uma metafísica específica: Poincaré seria o defensor da beleza no sentido clássico (a verdade é bela e útil) e Duhem como defensor da beleza no sentido medieval (a natureza é bela porque foi produzida por uma inteligência superior). Mas e McAllister?

Para mim McAllister poderia ser classificado como um contemporâneo, classificação que abrigaria qualidades e defeitos. A grande qualidade é que em relação à beleza ele adota uma postura pluralista. Em minha avaliação, é certeira a abordagem que ele faz de que nossa própria concepção de beleza muda de acordo com a evolução da espécie e, logo, com a evolução das teorias. A ciência do início do século XX até hoje, segundo seu diagnóstico, adota teorias que seriam tradicionalmente caracterizadas como feias, mas essas teorias explicam e prevêem os fenômenos melhor do que as outras mais belas. Portanto, a lição que fica é: não é frutífero à ciência ter uma visão estreita acerca de nenhum conceito. E é exatamente neste ponto que eu acredito residir seu maior defeito.

Por qual razão McAllister considera a beleza como um valor e a utilidade como um fato? Por qual razão a beleza estaria sujeita a mudanças, enquanto a utilidade seria um critério absoluto? Será que se o principal critério de avaliação científica deixar de ser a utilidade – ou até mesmo outra espécie de utilidade – nossa própria visão de beleza também não se alteraria? Em minha opinião, tal postura é tipicamente contemporânea. É uma postura que é revestida de objetividade exatamente porque toma como dado certos pressupostos metafísicos, tais como a utilidade.

Enfim, o tema do artigo é muito interessante e a abordagem de McAllister é clara, porém há uma última questão que me incomodou desde o início do artigo e que o Carlos também foi capaz de identificar: o autor trata o tema como se fosse algo trivial e conclui o artigo como se tivesse resolvido todas as questões. Em que pese seja um artigo e, em razão disso, tenha que cumprir diversos critérios como número de palavras, adequação da linguagem ao público alvo, entre outros, penso que seria no mínimo prudente adotar uma postura mais investigativa e menos conclusiva em respeito à própria manutenção do debate.

Andre Philot

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Sobre estudosdects

Oficializado junto ao CNPq em 2010, este grupo existe informalmente desde 2004, ano em que o prof. dr. Antonio Augusto Passos Videira começou a ministrar disciplinas no Programa de Pós-Graduação em Filosofia especificamente voltadas para os problemas, temas e autores dos chamados Science Studies. O objetivo, ao ministrar tais disciplinas, era apresentar aos alunos do PPGFil uma nova perspectiva para a análise da ciência que abarcasse outros eixos teóricos que não apenas aqueles tradicionalmente empregados pela Filosofia. Esses outros eixos temáticos incluem a História e a Sociologia das Ciências. No entanto, e diferentemente do que se pode esperar da perspectiva dos Science Studies, o grupo em torno do prof. Antonio Augusto Videira considera relevante analisar a ciência a partir das suas implicações e/ou pressupostos ontológicos e metafísicos. Desse modo, ocorre também uma ampliação no recurso que se faz da Filosofia, uma vez que esta última não se resume à Filosofia da Ciência. Em outras palavras, a ciência é mais do que apenas um tipo específico de conhecimento sobre a natureza.
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