“Discussão: profissionalização, pós-graduação e ciência”. Relato de Rogério Tolfo

No dia 27 de setembro de 2013, ocorreu debate na UFRJ, no Fundão, cujo tema foi: “Discussão: profissionalização, pós-graduação e ciência”. Farei um rápido relato do que foi dito pelos palestrantes e, em seguida, um breve comentário que irá considerar tanto algumas afirmações dos palestrantes, quanto as questões levantadas pelos ouvintes e debatedores.

A primeira palestrante Débora Foguel, Pró-reitora de pós-graduação e pesquisa da UFRJ, iniciou dizendo que não tem uma posição fechada sobre o tema em questão, a profissionalização do cientista. Acha que o pós-doutor deveria ter atenção especial em relação à regulamentação e regularização, mas não o estudante de mestrado e doutorado. Frisou várias vezes que se deve dar relevância ao pós-doutor em relação à profissionalização. Também afirmou que há direitos trabalhistas que podem ser garantidos (para estudantes de mestrado e doutorado) que não dependem necessariamente da questão da profissionalização. Para a palestrante, a criação do cargo de pesquisador nas universidades é vista como uma necessidade, por exemplo, para o adequado funcionamento de laboratórios sofisticados. Há estudantes que trabalham nestes laboratórios, que dominam seu funcionamento, mas que não querem seguir a carreira docente e que são fundamentais para o “bom” funcionamento destes laboratórios. Portanto, é importante a criação da figura do pesquisador.

O segundo palestrante Stevens Rehen, professor de Neurociências da UFRJ, iniciou sua fala dizendo, sem rodeios, que era contrário à profissionalização em qualquer nível e que a figura central da profissionalização é o pós-doutor. Em seguida disparou: se o professor orientador contrata, o seu interesse é outro que o compromisso com a boa formação do orientado. Também disse que o estudante deve visualizar perspectivas diferenciadas de atuação profissional após sua formação e deu exemplo de executivos da Vale do Rio Doce, no caso, um pesquisador com doutorado formado na Unifesp. Lembrou que, junto aos direitos que podem ser reivindicados, há sempre deveres que devem ser cumpridos e também que a estabilidade no funcionalismo público trás consigo problemas como, por exemplo, o não cumprimento de obrigações por parte de professores, técnicos e funcionários e, dada a estabilidade, nada se pode fazer efetivamente.

O terceiro palestrante Roberto Nunes, representante da ANPG e pós-graduando em filosofia, disse que o fato de ser contrário à profissionalização não significa que não há preocupação com os pós-graduandos. Mencionou que há uma diversidade de áreas de pós-graduação e que isso deve ser considerado quando se propõe profissionalização do estudante. Ainda alertou sobre possíveis problemas que podem ser oriundos de uma dissociação ensino-pesquisa, embora a contratação da figura do pesquisador (não docente) possa ser uma necessidade. Por fim disse que há exemplos de que o estudante pode receber remuneração ou ter direitos e auxílios garantidos sem a necessidade de profissionalização.

A penúltima pessoa a se pronunciar, Denise Carvalho professora e ex-diretora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, iniciou com questionamentos, entre os quais: O que é ser um cientista? Possivelmente diversas respostas seriam dadas caso os ouvintes fossem indagados, proferiu. Em seguida afirmou categoricamente que pós-doutor é um profissional cientista, que aqui e no mundo só doutor pode ser pesquisador. Afirmou ainda que não há problema de um profissional ser mandado embora, ter contrato temporário. O que não pode é não ter seus direitos trabalhistas assegurados

O último palestrante, Antonio Augusto Passos Videira, professor de filosofia da UERJ e colaborador do CBPF/MCTI, disse que, ao deparar-se com o tema do debate, perguntou-se: qual problema estava sendo posto? Por que regulamentar a carreira do cientista? O que está em jogo quando se escolhe ser cientista? Disse ainda que antes do problema da profissionalização deve-se perguntar: O que queremos fazer? O que queremos de nossas vidas? E alertou sobre cuidados que se deve ter antes de propor profissionalização, pois isso poderia até mesmo descaracterizar o que somos e o que buscamos com a ciência.

A exposição acima não foi exaustiva, apontou alguns aspectos que foram levantados e questionamentos feitos nas exposições. Pode também ter ocorrido de algo ter sido mal formulado ou equivocadamente registrado, anotado – creio que não é o caso. Gostaria de mencionar que um dos presentes mencionou ainda que ouviu dizer que os defensores da profissionalização não consideravam importante a vocação na ciência, o que segundo ele tinha sido tangenciado na fala do último palestrante. Com as questões dos estudantes à mesa ficou clara uma preocupação daqueles em relação à sua “precária situação”, vivenciada em diversos pontos, entre os quais o baixo valor das bolsas de estudo.

Para finalizar, o breve comentário que aqui faço é o seguinte: se a proposta da profissionalização é suscitada pela “situação precária” dos estudantes ou por qualquer outra motivação deste gênero, suponho que o caminho para a solução dos problemas é equivocado. Questões relativas a valor de bolsas, não cumprimento de suas obrigações por parte de funcionários públicos, entre outras, parece que não serão resolvidas com a profissionalização e, além de não resolver os problemas já existentes, poderão criar vários outros. Isto é, certos problemas são típicos de nosso país que necessita tanto de reformas estruturais adequadamente executadas, como a reforma política e tributária, que visem o benefício da maioria da população e não de alguns grupos (e neste sentido considero que o exemplo da vale do Rio Doce não foi um bom exemplo), quando de mudanças em determinadas legislações como a que “protege” funcionários públicos com a estabilidade, independentemente de desempenhar ou não suas funções, de cumprir ou não com suas obrigações. Além disso, toda e qualquer atividade exige esforço, determinação e dedicação (e, no caso da ciência, por que não falar em vocação). Como foi lembrado no debate, quem troca a lâmpada de uma residência ou quem realiza a graduação em determinado campo do saber deve executar sua atividade com afinco e competência. Isto significa que “devemos” executar bem as nossas atividades. Numa sociedade, juntamente com os nossos direitos, estão os nossos deveres. Creio eu, um dos deveres com o qual “falhamos” reiteradamente é o que diz respeito às mudanças necessárias e imprescindíveis na estrutura social e política de nosso país.

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Sobre estudosdects

Oficializado junto ao CNPq em 2010, este grupo existe informalmente desde 2004, ano em que o prof. dr. Antonio Augusto Passos Videira começou a ministrar disciplinas no Programa de Pós-Graduação em Filosofia especificamente voltadas para os problemas, temas e autores dos chamados Science Studies. O objetivo, ao ministrar tais disciplinas, era apresentar aos alunos do PPGFil uma nova perspectiva para a análise da ciência que abarcasse outros eixos teóricos que não apenas aqueles tradicionalmente empregados pela Filosofia. Esses outros eixos temáticos incluem a História e a Sociologia das Ciências. No entanto, e diferentemente do que se pode esperar da perspectiva dos Science Studies, o grupo em torno do prof. Antonio Augusto Videira considera relevante analisar a ciência a partir das suas implicações e/ou pressupostos ontológicos e metafísicos. Desse modo, ocorre também uma ampliação no recurso que se faz da Filosofia, uma vez que esta última não se resume à Filosofia da Ciência. Em outras palavras, a ciência é mais do que apenas um tipo específico de conhecimento sobre a natureza.
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