“A ciência e a filosofia dos modernos” de Paolo Rossi: exposição e breves comentários de algumas passagens.

Resumo da apresentação de Rogério Tolfo

Nosso objetivo principal nesta apresentação é expor, reconstruir de modo resumido, as ideias de Rossi presentes na nota prévia, introdução e capítulo um da obra “A ciência e a filosofia dos modernos”, sem visar comparações ou crítica. No entanto, visamos fazer brevíssimos comentários ao final do texto, para os quais também tomarei os comentários, dos membros deste grupo, realizados na apresentação destas passagens da obra de Rossi.
Segundo Rossi, em sua nota prévia, o que ele pretende é esclarecer alguns temas da chamada Revolução Científica, por exemplo, o declínio do mundo mágico e da tradição hermética. Como o autor deixa claro, possui intenções claramente polêmicas dirigidas aos divulgadores de uma imagem negativa da ciência e da sociedade industrial. Sua introdução, intitulada “O pensamento de Galileu no século XX”, inicia com a seguinte frase de Heidegger “Nasce a ciência, desaparece o pensamento”. Então afirma: as variações deste tema são quase infinitas. Ainda sobre Heidegger dirá que, “Na conferência de 1953 sobre a ‘Questão da técnica’, Heidegger chegou a conclusões claríssimas. A ciência ‘reifica as coisas em objetualidade e falsifica o Ser’” e dirá que neste contexto conclui-se que a escravidão, opressão e exploração são resultado a conquista e sujeição do mundo natural e não da organização da sociedade ou do uso da ciência e da técnica. Mas o alvo de Rossi não parece ser Heidegger ou Husserl, mas as variações quase infinitas do que dizem estes filósofos. Entre estas variações estão Arendt e Koestler. Segundo Rossi, a primeira uma jornalista de alto nível e o segundo um notável escritor. Rossi é “duro”: em Arendt e Koestler “a ‘crítica da ciência” de Husserl e Heidegger, de Horkheimer e de Adorno, transforma-se num desfile de lugares comuns, …”. Quem também não é “poupado” é René Guenon: “Não será inoportuno recordar o livro La crise du monde moderne, que René Guénon publicou em 1946 e … . Um defensor do ocultismo e de um orientalismo misticizante …”. Realizada tal apresentação, passaremos à exposição do primeiro capítulo intitulado “Sobre o declínio da astrologia nos inícios da idade moderna”.

De saída, nosso autor, refere-se a um ensaio de Lynn Thorndike publicado na revista Isis. Dirá que a contraposição astrologia-ciência moderna, para Thorndike, não resulta nem da ‘descoberta’ de uma lei universal da natureza, nem da aplicação da matemática à natureza, pois ambos estão presentes na astrologia. Tal contraposição tem sua origem na obliteração gradual da distinção céu-terra. Rossi aceita a hipótese da ‘derrota’ da astrologia como consequência da substituição do sistema aristotélico pelo copernicano, mas, “o que se pretende é lançar luzes sobre o caráter excessivamente esquemático dessa interpretação”. Para isso, lança mão de outra obra e autor, “Disputationes” de Pico della Mirandola.
Rossi parece discordar, do que para ele é ponto de vista comum entre estudiosos, que a polêmica antiastrológica de Pico é “a manifestação de uma mentalidade ‘incoerente e desordenada’, ou como um exercício de caráter retórico-literário …”. Diz ainda que tais estudiosos parecem ver na nova astronomia o fator único e determinante do ‘desaparecimento’ da astrologia. Nosso autor diz explicitamente que quer refutar o ponto de vista de Thorndike e, portanto, desse “lugar comum”. Rossi alerta que para Pico, a astrologia é uma mistura híbrida de ciência e religião, de cultos e de técnicas. Deste modo, o exame da astrologia, para Pico, deve considerar todos estes elementos: de um lado astronomia, medicina e meteorologia, de outro lado superstições, cultos e cerimônias. Dito isso, Rossi foca sobre três pontos que considera relevantes nas argumentações de Pico. O primeiro ponto versa sobre a mentalidade dos astrólogos: estes desejam suscitar espanto e admiração, não tem como fim o conhecimento, mas a ‘glória e o lucro’ e “… esconde ‘o absurdo de sua profissão com a grandeza das coisas sobre as quais afirma o falso’ e com a ‘amplidão de suas promessas’…”. O segundo ponto, refere-se às considerações de Pico sobre o método na astrologia. De acordo com Pico, nas palavras do autor de “A ciência e a filosofia dos modernos”, a acusação de Ptolomeu de que os astrólogos não deram unidade metódica à sua arte é sem sentido, pois na astrologia a prática das predições não se dá conforme regras, mas é “conduzida com extrema negligência e descuido”. Por fim, o terceiro ponto, parece ter o objetivo de mostrar que a astrologia, em sua origem, com os caldeus e egipcíos, não apresentaram – como nos gregos, também “persuadidos de que a suma sapiência consistia na religião” – uma “filosofia natural mediante demonstrações racionais”, restringindo sua “divina sapiência” as cerimônias e cultos aos deuses. Daí sua atribuição das próprias culpas e penas aos astros. Realizada tal exposição, chegamos ao último item do capítulo aqui apresentado.

No último item do capítulo “Um texto de Shakespeare e outro de Bacon”, é afirmado que “a recusa da astrologia como superstição nasceu”, tanto “de uma reivindicação de liberdade de ação”, quanto de “uma polêmica contra as falsas ciências”. Seguem-se duas citações, uma de Shakespeare e outra de Bacon, que, acreditamos, lançam imensa luz sobre o dito acima. Shakespeare diz:

Eis aqui a estupenda imbecilidade do mundo: quando a sorte nos é adversa, muitas vezes por causa de nossa própria conduta, atribuímos a culpa de nossas desgraças ao Sol, à Lua e às Estrelas, como se fôssemos infames por necessidade, insensatos por compulsão celeste, patifes, ladrões e traidores por influxo das esferas; beberrões, mentirosos e adúlteros por obediência forçada à influência dos planetas; como se toda a nossa maldade tivesse por causa um impulso divino. Admirável evasiva de amante de putas; deixar sua lascívia caprina a cargo de uma estrela.

A passagem citada de Bacon, alerta para o fato de que a astrologia não leva em conta os casos negativos:

Por isso justamente aquele a quem mostravam quadros pendurados num santuário, como promessa de pessoas salvas de um naufrágio, quando lhe perguntavam com insistência se não reconhecia o poder dos deuses, perguntou por sua vez: ‘E onde está o retrato daqueles que, embora tenham feito a promessa, também estão mortos? Esta consideração vale para todas as outras superstições, como a astrologia, os sonhos, as adivinhações, as maldições e outras que tais. Os homens que se comprazem com tais vacuidades notam os eventos que se verificam, mas desprezam ou não prestam atenção àqueles (e são a maioria) que não se verificam.

Embora, segundo Rossi, não há consideração direta de Bacon a Pico, ao contrário de Kepler e Mersenne, o primeiro acredita que as páginas do De augmentis parecem revelar a consideração de Bacon à Pico. Passaremos, a seguir, a tecer breves comentários sobre o texto.

Inicialmente, Rossi afirma explicitamente que tem intenções claramente polêmicas que são dirigidas aos divulgadores de uma imagem negativa de ciência e de uma sociedade científico-tecnológica. Possivelmente não tenhamos nada melhor para por no lugar da ciência. Acreditamos que a religião não seja a saída. No entanto, acreditamos que este ponto mereça discussão, pois certamente também há os divulgadores de uma imagem positiva da ciência e de uma sociedade científico-tecnológica, certamente há “propensões itálicas para uma cultura exclusivamente” científico-tecnológica e talvez as consequências de tal divulgação e “propensão” sejam tão danosas quanto à divulgação de uma imagem negativa da ciência. Quanto ao primeiro capítulo intitulado “Sobre o declínio da astrologia nos inícios da idade moderna”, podemos perguntar o que Rossi entende por “lançar luzes sobre o caráter excessivamente esquemático dessa interpretação”. Aqui se refere à interpretação de que a “derrota” da astrologia foi devida a substituição do sistema aristotélico pelo copernicano. Para lançar luzes, acreditamos, Rossi precisa de um método, mas, é difícil identificar que método é esse e, ao que parece, Rossi não esclarece isso. Rossi apresenta teses, de outros autores, sobre a contraposição astrologia-ciência moderna, compara com a obra de Pico e afirma que este visa atingir uma mistura híbrida de “ciência” e “religião” e ao final diz que “a recusa da astrologia como superstição nasceu,… sobre um terreno de… uma reivindicação da liberdade de ação e o de uma polêmica contra as falsas ciências” e, então, dá os exemplos de Shakespeare e Bacon. Há elementos da tradição hermenêutica aí presentes? Por exemplo, ao discordar da interpretação corrente de que a ‘derrota’ da astrologia se deu pela substituição do sistema aristotélico pelo copernicano, alertando para a mistura híbrida entre ciência e religião, não estaria aceitando um círculo em que as partes da obra de Pico não podem ser compreendidas sem o todo e vice-versa? Acreditamos que um estudo mais profundo desta obra de Rossi identificaria princípios da tradição hermenêutica como norteadores do debate por ele empreendido na obra e passagens por nós apresentadas. Para isso, acreditamos também, é necessário compreender o “todo” da própria obra (seu pensamento como um todo) de Rossi, a fim de melhor entender as partes (seus livros e trabalhos enquanto partes).

Referência bibliográfica:
Inwood, Michael. Dicionário Heidegger. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
Rossi, Paolo. A ciência e a filosofia dos modernos. São Paulo: UNESP, 1992.

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Sobre estudosdects

Oficializado junto ao CNPq em 2010, este grupo existe informalmente desde 2004, ano em que o prof. dr. Antonio Augusto Passos Videira começou a ministrar disciplinas no Programa de Pós-Graduação em Filosofia especificamente voltadas para os problemas, temas e autores dos chamados Science Studies. O objetivo, ao ministrar tais disciplinas, era apresentar aos alunos do PPGFil uma nova perspectiva para a análise da ciência que abarcasse outros eixos teóricos que não apenas aqueles tradicionalmente empregados pela Filosofia. Esses outros eixos temáticos incluem a História e a Sociologia das Ciências. No entanto, e diferentemente do que se pode esperar da perspectiva dos Science Studies, o grupo em torno do prof. Antonio Augusto Videira considera relevante analisar a ciência a partir das suas implicações e/ou pressupostos ontológicos e metafísicos. Desse modo, ocorre também uma ampliação no recurso que se faz da Filosofia, uma vez que esta última não se resume à Filosofia da Ciência. Em outras palavras, a ciência é mais do que apenas um tipo específico de conhecimento sobre a natureza.
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Uma resposta para “A ciência e a filosofia dos modernos” de Paolo Rossi: exposição e breves comentários de algumas passagens.

  1. Tom Lemos disse:

    O que mais me intriga nessa argumentação de Paolo Rossi em sua defesa aparente da ciência é exatamente a forma que utiliza; mais precisamente, é a mistura, um tanto alquímica, de nomes como Arendt, Koestler e Guénon como alvos de comentários e críticas.

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