Science studies no Brasil

Neste encontro não apresentei exatamente os science studies no Brasil, e sim coloquei a questão sobre como fazer science studies entre nós.

Para além de estudar os autores dos science studies, seus objetos de pesquisa e como eles têm pesquisado – que é o que eu tenho feito – gostaria de tentar fazer no Brasil o que eles têm feito lá fora, algo que chamei de science studies tupiniquim. Afinal, não se trata de investigar a ciência tal qual se faz no Brasil? Por isso pensei em tomar instituições brasileiras como o LNA ou a Cobra Computadores, por exemplo, e fazer aqui o que fizeram lá fora o Latour, o Galison, entre outros autores dos science studies.

É claro que tem gente no Brasil, inclusive no nosso grupo, fazendo história das instituições, e certamente não é uma história convencional, mas em que medida fazer science studies tupiniquim se diferenciaria de fazer história da ciência institucional? Não sei, esta é uma questão.

Ao longo da nossa discussão, outra questão se destacou: a inovação. Além de ter arrebatado o MCT, que virou MCTI, o discurso da inovação é predominante hoje no Brasil, aliado ao Plano Brasil Maior, notadamente nacional-desenvolvimentista. Nesse sentido, pareceu-nos inviável qualquer tentativa de fazer science studies tupiniquim sem considerar a agenda político-científica da inovação. Evidentemente, isso não implica concordância com essa agenda, talvez até mesmo uma ressignificação: Será possível pensar num outro conceito de inovação? Quem sabe um que tome a multiplicidade nas bases da composição social? Afinal, inovação para quem, cara-pálida?

Para fechar as minhas considerações sobre o que me lembro desse nosso encontro, gostaria de mencionar a questão da circulação do conhecimento. Já há algum tempo tenho batido nessa tecla, mas é porque acredito ser esta uma abordagem produtiva para os science studies, sobretudo no Brasil, que se trata, em geral, de um ator coadjuvante na cena científica internacional. Acho que essa questão torna-se ainda mais importante – quer seja pelo viés da educação, da produção, da transmissão ou da divulgação da ciência – se considerarmos o alardeado crescimento econômico brasileiro, que acaba por produzir o mencionado discurso sobre inovação, além da continuada (re)produção do modelo de big science.

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2 respostas para Science studies no Brasil

  1. Tom Lemos disse:

    Cristina, achei sua apresentação extremamente provocativa e pertinente. Gostei muito. Você tocou em diversos pontos cruciais pra filosofia da ciência e pros science studies feitos no Brasil. Pois é, é bastante interessante quando podemos não apenas estudar os autores que fazem em seus países science studies (realizando assim uma espécie de meta science studies), mas fazermos como eles: estudarmos a ciência feita em nosso próprio país, inclusive considerando as questões políticas envolvidas. Mas tenho pensado, também, em uma certa variante disso: em estudar a ciência que se faz no mundo — incluindo ou não o quinhão diminuto de fazer científico que nos cabe –, mas valorizando o ponto de vista de quem está por aqui. Desconfio que nosso ponto de vista, quase independentemente de qual for nosso “objeto”, poderá contribuir com um modo de pensar original e inovador. Inovação, nesse caso, portanto, se aplicaria aos estudos sobre as ciências, eles mesmos, e envolveria a possibilidade de provocação política de novos caminhos a partir de problemas apenas formuláveis por quem está em nossa situação.

  2. A viajante disse:

    Beleza, Tom! Gosto dessa ideia de que o nosso olhar tupiniquim já pode ser a tal da inovação.
    Obrigada pelo feedback, vamos seguir pensando nisso.

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